CAMINHOS ALTERNATIVOS PARA O TRC

Em que pesem todos os danos que já causou, e ainda há de causar, com incalculáveis prejuízos à saúde e à economia mundial, a pandemia do novo coronavírus pode se transformar em importante propulsor de mudanças no comportamento social e empresarial. Este entendimento foi compartilhado entre os participantes do 4º e último episódio da primeira temporada do projeto Notáveis do TRC.

Consultor, engenheiro e economista, com passagens em vários organismos públicos, Frederico Bussinger destacou sua satisfação em ver a solidariedade da população para com os motoristas, diferentemente do que ocorreu em 2018, quando a categoria paralisou atividades. “Em várias regiões do Brasil a população ajudou os transportadores, fornecendo alimentos e cedendo banheiros. Vi várias faixas reconhecendo, não apenas o trabalho do pessoal da saúde, que está na linha de frente, mas também da limpeza, do abastecimento e os transportadores”, assinalou.

Da mesma forma, segundo ele, a pandemia dará vazão ao surgimento de novos arranjos sociais e econômicos, atingindo diretamente o setor da mobilidade. Parte das alterações será transitória para atender esse momento, mas outras ficarão para sempre, impactando fortemente a logística. Cita, como exemplo, o e-commerce e os novos formatos de entrega. Igualmente serão adotadas como regra os trabalhos à distância por meio de reuniões virtuais. “Isto vai mexer com o transporte profissional”, alertou.

Enfatiza, no entanto, que as mudanças resultarão em ambiente de negócios mais acolhedor e humilde. “Creio que a arrogância dará lugar à solidariedade. Muitos setores olhavam de cima para baixo, mas hoje todos enfrentam as mesmas dificuldades, em maior ou menor grau. Sinto que existe uma articulação positiva, uma ideia de parceria que se ampliará entre grandes e pequenas empresas. Estamos no momento de definir isso e prosperar”, reforçou.

Gustavo Ereno, gerente administrativo da Transportes Risso, também reconhece que ficou surpreso com a solidariedade da população. Segundo ele, o entregador ou motorista, quando vai fazer coleta ou entrega, é agora visto com mais humanidade. “Creio que estamos nos tornando mais humanos”, reforçou.

 

André Massa, diretor da Transportes Massa, manifestou surpresa com a mudança de comportamento dos embarcadores, que se tornaram mais sensíveis aos transportadores. Ao contrário do passado, quando a coleta era cobrada de forma até exagerada por alguns, atualmente se tem visto mais flexibilidade. O diretor executivo da Pront Cargo, Iltenir Júnior, também destacou a mudança de política dos embarcadores, que tem negociado prazos de transporte, por estarem cientes das dificuldades.

Massa destaca também as parcerias com empresas regionais, o que facilita a movimentação em alguns pontos do país, mas que, ao mesmo tempo, requer mais cuidados no gerenciamento de risco. “É preciso buscar organizações que estejam com a situação totalmente legal para casar a operação, envolvendo também o embarcador”, afirmou. Considera ainda viável uma parceria entre autônomos e transportadoras para fazer viagens mais longas. “A distância poderia ser coberta de forma cooperativada”, exemplificou.

Logística passará por reavaliações e mudanças 

Ao destacar seus mais de 50 anos de atividades no setor da mobilidade, especialmente no transporte ferroviário, Fred Bussinger assinalou que tecnologia não é o conhecimento acumulado nem os equipamentos. Para ele, tecnologia é a capacidade de resolver problemas. Frisou que o planejamento de mobilidade, como atualmente é feito, considerando as variáveis pessoas, cargas e serviço, deve sofrer mudanças.

Acredita que as informações disponíveis podem vir a ser usadas para reduzir a circulação das pessoas e das cargas. “Estamos muito acostumados a tratar do lado da oferta, mas acho que essa crise está mostrando que também precisamos gerir a demanda. Acho que teremos de fazer um rearranjo no parque instalado a partir das novas tecnologias. Talvez tenhamos um parque de material rodante diferente e, até mesmo, uma mudança nos investimentos em infraestrutura”, projeta

Destaca, por exemplo, a possibilidade de utilização dos portos nas 24 horas do dia, durante todo o ano, bastando que haja mecanismos para liberação das cargas. Isto poderia postergar a construção de uma nova rodovia ou ferrovia. “Se houver organização e maior eficiência, talvez não sejam necessários tantos investimentos. Creio que haverá um choque nos conceitos e nas metodologias, podendo gerar resultados muito concretos”, observa.

No entanto, Bussinger coloca como prioridade a consolidação do transporte multimodal, que poderá, inclusive, viabilizar a adoção de um documento eletrônico único. “Temos, há mais de 20 anos, uma lei boa de operador de transporte multimodal, mas são poucos os que operam desta forma. Com esta crise, precisamos acelerar os processos de transformação. A multimodalidade no transporte dificilmente vai avançar sem o documento único”, ressalta. Mas defende a continuidade das licitações de concessões rodoviárias e ferroviárias, além de arrendamentos portuários. “Não adianta fazer planos logísticos se não temos instrumentos logísticos. Precisamos dar soluções logísticas, que passam pela integração dos modais”, sustenta.

Na avaliação de Bussinger, também será necessário repensar as frotas de todos os tipos de transporte, destacando a chegada forte do delivery. Afirma que a situação é heterogênea, com alguns setores amargando grandes prejuízos, como a indústria automotiva, e outros crescendo, casos do agronegócio e de higiene e limpeza. “Isto terá de ser considerado nas decisões”, apontou.

Empresas ajustam-se aos novos tempos

Na avaliação de Gustavo Ereno, gerente administrativo da Transportes Risso, está em andamento uma reprogramação da sociedade. No caso da mobilidade, cita a adoção de horários diferentes para entregas de mercadorias, ampliação para setores até agora não contemplados, novas formas de atendimento e, principalmente, de como conversar com os clientes.

Para ele, é fundamental a incorporação de novas ferramentas tecnológicas, inclusive os veículos autônomos, já comuns em vários países. Lembra que, no Brasil, este avanço já é usado em usinas de açúcar e álcool, mas em circuitos fechados. Falta, agora, segundo ele, ver estes caminhões rodando nas estradas. Também cita a necessidade de estar mais próximo ao cliente, ainda que virtualmente. “Teremos de saber se a empresa dele tem alguma restrição quanto ao recebimento, se tem algum cuidado extra com a carga. É fundamental saber as precauções que precisam ser tomadas para atender determinado produto. É necessário conhecer as particularidades de cada cliente”, assinala.

Iltenir Jr. também entende que as reuniões serão cada vez menos presenciais com o surgimento de diferentes plataformas virtuais. Acredita que isto tende a ser positivo, na medida em que haverá economia com combustível, menos estresse no trânsito e mais tempo dedicado ao diálogo. “Nas grandes cidades, atualmente, se consegue produzir uma visita. E nós precisamos é vender a estrutura que temos a oferecer, a experiência de mercado, o que pode ser feito por meio virtual. A gente tem evoluído bastante nesse sentido para termos mais proximidade com clientes”, observou.

Além das tecnologias básicas e medidas de segurança exigidas na atividade, como rastreador de veículo, escolta armada e gerenciadora de risco com boa apólice amparada, Iltenir Jr. alerta para os cuidados com a informação estratégica dos volumes que são transportados. “Antes mesmo de colocar a mercadoria no caminhão, já temos a informação para onde ela vai e em que volumes. Aqui entra a questão da LGPD, que o pessoal não leva muito em consideração. Temos de nos preparar, porque é algo específico, e pode ser ameaça a todo o trabalho de segurança que realizamos. As informações podem vazar e colocar a operação de risco. Por isso, quando se investe em segurança é preciso pensar nisto, não apenas nas informações fiscais e naquelas do cotidiano”, analisa.

Ainda destaca a importância da integração, usando tecnologias de plataformas para acompanhar a viagem dos caminhoneiros. Neste sentido, afirma que a empresa tem desenvolvido várias soluções para garantir esta integração. “Quanto mais integrados estivermos, melhor a condição de atender os clientes na retomada. Não se sabe quando, mas ao voltar será, certamente, muito forte”, projetou.

Na avaliação de André Massa, todas as empresas terão de se reinventar nos aspectos de atendimento e operacionais. Mas lembra que, mesmo o governo adotando algumas medidas para mitigar os prejuízos, será preciso ter fôlego maior para a retomada, pois é longo o período entre a contratação do serviço e o efetivo recebimento dos valores. “Por isso, é importante que o governo avalie a redução de tributos para que as empresas possam se reerguer financeiramente. Temos também a dificuldade de acesso ao crédito, pois somos considerados pelos bancos clientes de alto risco pelas características da atividade. Reduzindo os tributos podemos criar o próprio capital de giro”, assinala.

Participou, também, do último episódio da primeira temporada da série “Notáveis do Transporte, o secretário Marcello da Costa Vieira, da Secretaria Nacional de Transporte Terrestre (veja entrevista Top View nesta edição).

Confira todo o debate, de forma mais detalhada, no canal do Youtube da TranspoData: https://bit.ly/transpodatapremium

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