O agronegócio tem importância ímpar na economia do País. O setor movimenta as vendas de veículos pesados, tem grande participação no Produto Interno Bruto e criou quase 20% dos empregos entre 2017 e 2018, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). Todos esses fatores seriam melhores aproveitados se a infraestrutura viária brasileira fosse mais eficiente.

Dados da 22ª Pesquisa CNT de Rodovias identificou que, dos 107.161 km analisados, 57,0% apresentam algum tipo de problema no estado geral, cuja avaliação considera as condições do pavimento, da sinalização e da geometria da via. Em relação ao pavimento, 50,9% dos trechos avaliados receberam classificação regular, ruim ou péssima. Na sinalização, 44,7% da extensão das rodovias apresentaram algum tipo de deficiência. Quando o aspecto é a geometria da via, 75,7% da extensão das rodovias brasileiras foram classificadas com regular, ruim ou péssima.

Além de todos esses entraves, o Brasil ainda esbarra em outro problema que afeta a logística, principalmente em zonas rurais. São os logradouros não identificados, que dificultam as entregas de produtos e serviços e impedem o produtor rural de fazer um planejamento de retirada de suas mercadorias, já que a transportadora não tem como programar o caminho e tempo de viagem.

Recentemente foi anunciado o programa Rotas Rurais, projeto da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag) e da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, com patrocínio da Anfavea, que tem o objetivo de mapear, por meio da contratação de um software, as estradas rurais do Estado de São Paulo, via satélite, e disponibilizar para a população da zona rural a localização de sua propriedade.

“O programa nasceu de uma demanda basicamente do produtor rural nas questões principalmente de atendimento público como serviços de segurança, polícia militar e de saúde (SAMU). Atualmente um morador da zona rural faz uma ligação para algum desses serviços públicos e a primeira pergunta do atendente é qual o endereço. E os moradores não conseguem responder já que essas propriedades têm apenas uma localização já referenciada por latitude e longitude”, explicou Caíque Paes de Barros, gestor do projeto Rotas Rurais na Fundepag.

Muitos insumos para o setor agrícola precisam ser entregues em cooperativas ou agências dos Correios

A mesma dificuldade é reproduzida no sistema de logística de escoamento do que foi produzido nesses locais e entrega de matéria prima. A loja de produtos agropecuários, por exemplo, não consegue fazer uma entrega pois não tem um endereço e a retirada da mercadoria e da produção agrícola também ficam comprometidas pois os motoristas não conhecem as vias. Assim o processo de entrega e retirada fica sob responsabilidade do produtor rural.

Segundo Caíque, 88% das estradas de São Paulo são municipais, boa parte sem endereçamento padronizado, ou sem endereço algum. Ele explicou que o nome das vias será batizado conforme normas federais e estaduais ‑ três letras identificando o município e mais três numerais identificando a localização. Exemplos: BR 101; SP 270; JAU 070. “A intenção é justamente dar um endereço a essa propriedade, fazer o loteamento das estradas rurais, assim como é feito nas cidades, e manter um padrão mundial de identificação”, destacou o gestor.

O plano inclui a distribuição dos mapas para órgãos estaduais, e também o compartilhamento com a iniciativa privada de forma a melhorar e universalizar os aplicativos de rotas (Google Maps, Waze, Mape.Me e outros) com informações das vias rurais. Usando a mesma lógica interativa desses aplicativos, todos os envolvidos passarão a compartilhar e colaborar na inserção dos mapas nos aplicativos de rotas.

O diretor de logística da ABComm, Luiz Augusto, explica que entregas em áreas rurais sempre foi um desafio para o e-commerce por conta de prazos e custos. “Quando a venda possui um valor médio muito alto a melhor forma de entrega sempre foi um modelo mais dedicado. Mas para compras de valor muito baixo, a única opção são os Correios, porém não há entregas em fazendas por exemplo. Os consumidores acabam sempre optando por uma entrega em uma cidade próxima ou caixa postal”, afirmou.

A logística de entrega nesses locais muitas vezes não é feita porta a porta, ou seja, o produto não é entregue diretamente na fazenda, e sim em um posto próximo, cooperativa, agropecuária ou até mesmo em uma agência dos Correios por exemplo, que por terem uma maior capilaridade de entregas no Brasil, são os grandes responsáveis em atender esse setor. Com toda a limitação que os Correios têm de cubagem, de peso, de volume, de uma forma geral é possível que consigam atender a grande maioria da demanda nessas zonas rurais. “Os próprios compradores de zonas rurais já se habituaram a esperar um pouco mais para receberem os produtos”, explicou.

Quase 20% dos empregos criados no Brasil entre 2017 e 2018 foram pelo agronegócio

Luis Gustavo lembra ainda que existe um movimento tecnológico muito forte acontecendo nos EUA, na Ásia, de inovações e entregas em zonas rurais, através de drones por exemplo, onde eles conseguem rapidamente chegar na porta da fazenda, deixar o produto, voar e voltar para o caminhão para pegar outro pacote e reabastecer. Então parece ficção científica, mas isso já está sendo feito em várias cidades pelo mundo, principalmente EUA e China.

A associação acredita que a identificação desses locais e o acesso à internet com massificação do uso de celular permite que mais pessoas entrem no comércio eletrônico. “As barreiras de confiança e logística ainda precisam ser superadas, mas é abrindo esses novos horizontes que podemos crescer ainda mais”.

88% das estradas de São Paulo não possuem endereçamento padronizado

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