A IVECO fez da mineira Sete Lagoas, no ano de 2000, a base da sua presença na América do Sul. No complexo industrial da marca, que completou 20 anos de operação com destaque para investimentos em tecnologia e inovação, são desenvolvidos, produzidos e testados veículos comerciais para o transporte de cargas e de passageiros, e de defesa. A unidade fabril demandou investimentos de R$ 570 milhões e, desde o início da operação, produziu aproximadamente 400 mil unidades de caminhões.

Nesta entrevista, Bernardo Pereira, recentemente promovido a diretor de marketing da marca, destaca os avanços destas duas décadas, as ações empreendidas no período de pandemia e os projetos de expansão. O executivo está na empresa há 10 anos, tendo coordenado o lançamento da nova linha Tector e do Novo IVECO Daily na área de Marketing de Produto. Também foi responsável pela implementação da área de BI e desenvolvimento dos programas de CRM na região. Ele assume cargo que era ocupado por Thiago Carlucci e se reportará diretamente a Márcio Querichelli, líder da IVECO na América do Sul.

Transpodata – A IVECO comemorou duas décadas da planta em Sete Lagoas em um ano difícil e atípico. Qual avaliação sobre o resultado deste ano e de que forma a marca agiu para manter a saúde financeira da unidade e de seus funcionários?

Bernardo Pereira – Foi especial para a IVECO, já que comemoramos 20 anos de operação do complexo industrial de Sete Lagoas. Por força do acaso, celebramos essa data em um ano marcado por uma pandemia global. Em março, quando foram iniciados os processos de fechamento e restrição em várias cidades do Brasil, planejamos uma série de medidas para resguardar a operação da marca e, principalmente, a saúde dos colaboradores, funcionários das concessionárias e clientes. Colocamos em prática novas formas de atendimento em tempo recorde, como a implementação de um canal via WhatsApp, para venda e pós-venda, e novas regras e processos industriais. Interrompemos as operações fabris em 27 de março e fomos a primeira montadora do setor a retomar a produção, em 22 de abril. As iniciativas foram pensadas para continuar atendendo os clientes da marca, caminhoneiros e transportadores, que mantiveram o transporte de cargas essenciais durante a fase mais crítica da pandemia. O ano de 2020 também foi marcado pelo crescimento do varejo e pela força do agronegócio, que continuam impulsionando a economia do país. O segmento em que atuamos não para e também não podemos parar. O portfólio, com as famílias Daily, Tector e Hi-Road/Hi-Way, tem opções que proporcionam baixo custo operacional e rentabilidade para esses setores e para outras operações do transporte de cargas.

Transpodata – Qual é, atualmente, a participação da unidade brasileira no contexto global da companhia em termos de produção e receita?

Pereira – A IVECO no Brasil é a unidade central da operação da marca na América do Sul, Central e Caribe. Temos um portfólio completo, dos leves aos extrapesados, e estamos cada vez mais alinhados com o portfólio global da marca. Isso garante que os clientes tenham à disposição um leque de produtos com alta tecnologia, conectividade, robustez e baixo custo de operação. O país continua sendo muito importante para a operação global da IVECO e, nos próximos anos, esse movimento de sinergia com a Europa tende a crescer.

Transpodata – Quais foram os mais recentes investimentos da empresa na unidade e quais os projetos futuros em termos de ampliação e modernização?

Pereira – Realizamos investimentos constantes no complexo industrial em diversas áreas: produção, pesquisa e desenvolvimento de produtos, e campo de provas, entre outros setores. O mais recente investimento recebido pela planta foi para a produção do novo IVECO Daily que começou a ser comercializado esse ano. Para o futuro continuaremos investindo em melhorias industriais, sempre focadas nos pilares do WCM, apoiado, por exemplo, na manufatura enxuta, reduzindo os desperdícios e aumentando a eficiência. Também trabalhamos para ter soluções cada vez mais sustentáveis e, na evolução da capacidade operacional, sempre buscamos novas tecnologias e a aplicação de combustíveis alternativos para o transporte.

Transpodata – A planta opera de forma similar aos conceitos globais da companhia ou criaram-se condições mais próximas à realidade nacional?

Pereira – A unidade foi totalmente planejada a partir dos conceitos do World Class Manufacturing (WCM), que significa Produção de Classe Mundial. O WCM é um dos mais elevados padrões da indústria de fabricação global para o gerenciamento integrado de fábricas e processos de produção. É um sistema estruturado em pilares com base na melhoria contínua, projetado para eliminar os desperdícios e as perdas no processo de produção por meio da identificação de objetivos e metas, como zero acidentes, zero defeitos, zero avarias e zero desperdício.

“Em cinco anos, campo de provas já foi local de 4 mil testes por meio de 342 protótipos”

Transpodata – Quais os principais diferenciais da planta quando se compara com estruturas similares da marca em outros países e em relação a unidades de concorrentes no Brasil?

Pereira – Em Sete Lagoas, a IVECO tem uma estrutura que se destaca pelo nível global de operação. Por exemplo, o Centro de Desenvolvimento de Produto (CDP), primeiro centro do tipo construído fora da Europa e que reúne mais de 150 profissionais, entre engenheiros, projetistas e técnicos, é responsável pelas inovações no portfólio comercializado na América do Sul. A área é fundamental no plano estratégico para desenvolvermos e criarmos veículos pensando nas necessidades e nos diferenciais de cada mercado em que a montadora atua. Temos também um campo de provas que nos permite realizar testes e avaliações no quintal de casa. Inaugurado em 2015, a estrutura é a primeira do setor a ser erguida no continente. Realizamos aproximadamente 4 mil testes por meio de 342 protótipos que enfrentaram intensas avaliações de resistência e de durabilidade que comprovaram a operacionalidade em situações reais de uso. O espaço ocupa uma área de 300 mil m².

Transpodata – Qual o grau de importância da planta para a economia de Sete Lagoas e região?

Pereira – Sem dúvida, temos um papel importante na economia de Sete Lagoas, mas quero destacar a importância da parceria da marca com a cidade nesses 20 anos de operação. A população do município tem um papel fundamental em nossa história no Brasil. Além da infraestrutura que Sete Lagoas nos oferece, a sociedade local nos proporciona mão de obra altamente qualificada que permite à montadora estar entre os grandes players do mercado de transporte. Da nossa parte destaco o Próximo Passo, programa que desenvolve ações de curto e médio prazo que engloba a preservação do meio ambiente, promove a cidadania e a conscientização sobre a importância do crescimento sustentável local, com ênfase nos tópicos uso racional dos recursos naturais, reciclagem, ética, capacitação e geração de renda. Importante destacar que durante a pandemia nos mobilizamos com foco nas necessidades da comunidade local para minimizar os efeitos negativos da pandemia. Doamos 6,4 mil máscaras de proteção para hospitais e entidades assistenciais; 250 protetores faciais de acetato para hospitais, órgãos de segurança e entidades assistenciais; 130 quilos de composto nutritivo de legumes para hospitais e asilos; e 437 quilos de alimentos e mais produtos de higiene e limpeza arrecadados durante campanha interna para beneficiar jovens do projeto Próximo Passo. Estamos fazendo um monitoramento periódico para entender de que outras formas podemos contribuir a partir das demandas de cada uma dessas famílias e instituições. As ações fazem parte da nossa estratégia em médio prazo, entendendo que as demandas podem ser prolongadas de acordo com a necessidade das entidades atendidas.

Transpodata – A planta chega ao final do ano operando na sua capacidade plena? Já repôs quadros caso tenha demitido em função da pandemia?

Pereira – Atualmente, operamos em um turno de trabalho nas áreas de produção. Em outubro, contratamos 272 colaboradores temporários para ampliar a capacidade operacional e maximizar os processos produtivos. Isso representa um compromisso da montadora com os nossos parceiros concessionários, com os clientes e com o Brasil.

Transpodata – Qual o cenário que a empresa vislumbra para o próximo ano em termos de produção, emplacamentos e exportações? E como a empresa deve fechar 2020?

Pereira – Temos muitos desafios pela frente em 2021. A chegada da vacina contra a covid-19 deve trazer estabilidade ao mercado econômico e retorno dos investimentos. O mercado deve continuar a ser beneficiado com o crescimento das entregas urbanas, seguindo o movimento de alta do e-commerce e também com o aumento da produção agrícola. Destaco também o papel fundamental que as reformas tributária e administrativa têm para tornar o país mais atrativo aos investidores. Outro ponto importante seria a retomada da discussão sobre a renovação de frota. Entendo que o programa de renovação da frota veicular é a maneira mais efetiva de buscar o equilíbrio entre as metas de curto prazo no que diz respeito à redução da emissão de poluentes e de custos operacionais dos clientes, e na melhoria da produtividade. A substituição de um veículo usado, com 20 ou 30 anos de fabricação, por um modelo novo traz vantagens e impactos sensíveis de forma imediata. É fundamental o apoio do governo e crédito facilitado para a compra de novos caminhões, bem como da Anfavea nessa empreitada. Fechamos novembro com forte crescimento em vendas ante um mercado em contração. A IVECO aumentou a sua participação em aproximadamente 2,5 pp, o que equivale a um incremento de volume de 25%, em um mercado que cai 12% no ano. Isso representa a consolidação de um forte processo de amadurecimento que a marca vem passando nos últimos anos e que começa a se materializar em números.

“Em outubro, contratamos 272 colaboradores temporários para ampliar a capacidade operacional e maximizar os processos produtivos”

Histórico da Iveco no Brasil

  • 2000 – início da produção da linha Daily
  • 2004 – início da produção da linha Stralis
  • 2008 – início da produção das linhas Tector e Trakker e inauguração do Centro de Desenvolvimento de Produtos
  • 2010 – início da produção da linha Vertis
  • 2012 – início da produção da linha Hi-Way
  • 2013 – inauguração da planta de veículos de defesa
  • 2014 – início da produção de produtos da IVECO BUS no Brasil
  • 2015 – inauguração do Campo de Provas
  • 2018 – início da produção do Hi-Road

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