A Sul Brasil Crédito, empresa do mercado financeiro especializada em fundos de investimento, reuniu em uma live especialistas em transporte e logística para debater os efeitos da crise causada pelo coronavírus. Participaram André Prado, da BBM Logística, líder de um dos principais projetos nacionais de desenvolvimento de plataformas logísticas; Leonardo Facchini, diretor comercial da Facchini S/A; Fernando Camargo, responsável pelas operações intermodais da Hamburg Süd/Aliança Navegação e Logística na Costa Leste da América do Sul; Fábio Leite, diretor da Unidas Trucks, unidade de negócios voltada ao mercado de caminhões e equipamentos; e Luiz Claudio Ramos, CEO e membro do Conselho da Opentech, empresa líder em gestão de risco logístico.

O encontro teve a condução do vice-presidente da Sul Brasil, Duani Reis. Transpodata reproduz os principais pontos da live

TRANSPODATA – Como as suas empresas receberam e se prepararam para enfrentar a crise da covid-19?

 

FERNANDO CAMARGOTomamos conhecimento da doença bem antes dela chegar ao Brasil, a partir dos escritórios do grupo na China e, após, da matriz, na Dinamarca. Desde então, passamos a introduzir protocolos que eram definidos globalmente. Mas havia muitas incertezas sobre como a doença se comportaria no Brasil. Dos 1,2 mil funcionários, colocamos 95% em office e mantivemos nos escritórios de São Bernardo e Manaus, com todas as precauções necessárias, as pessoas ligadas ao serviços essenciais. Uma demanda foi a montagem da infraestrutura para que as pessoas trabalhassem em casa. Em alguns casos chegamos a montar escritórios robustos. Tínhamos que preservar as vidas, mas não parar. Também cuidamos dos motoristas da frota própria e dos terceirizados, além dos mais de 500 tripulantes de navios. No início, foi desafio manter o nível de atividade em casa. Agora, sentimos mais produtividade em algumas áreas e, passada a crise, teremos mudanças nestes aspectos. Tivemos dificuldade de operar com a série de contingências. Havia ascendência de volume e o ano era promissor.

ANDRÉ PRADONosso grande mérito foi ter feito a rápida integração, que ajudou muito na crise. A primeira preocupação foi como comunicar a todos, principalmente na ponta, o que se estava enfrentando. A empresa tem 10 mandamentos, que são repassados aos colaboradores. Criamos 10 para o período de crise e, a partir deles, treinamos os colaboradores e terceirizados, de forma clara e objetiva. Os contratos dedicados sofreram menos, porque continuamos atendendo indústrias de base, segmentos que estão indo bem e até elevando demanda, como papel, celulose e embalagens; na divisão de gestão de transporte, adequamos às atividades que estavam operando melhor; e os fracionados, que atendem demandas do consumo, sentiu mais, com grandes impactos nos grandes centros. Atuamos sempre forte em comunicação e planejamento estratégico, com duas a três reuniões semanais do comitê, que envolve diretorias e gerentes. A segurança é prioridade, por isso, vacinamos os colaboradores, isolamos os que integram os grupos de riscos e intensificamos o uso de equipamentos de proteção individual, tornando as máscaras obrigatórias. Percebemos um espírito de colaboração muito forte do grupo, com reflexos na melhoria do nível de serviço. Esta crise é histórica, a preservação da vida precisa ser tratada como item número um. Assim como impacta nos negócios, cria oportunidades. Temos a obrigação de atender bem e isto temos passado aos nossos 4 mil efetivos e milhares de terceirizados.

LEONARDO FACCHINICom a declaração da pandeia pela Organização Mundial da Saúde e a ocorrência do primeiro caso no Brasil, montamos o comitê de crise que criou um plano de contingência baseado em prevenir, informar e proteger. Na primeira semana, isolamos os grupos de risco, 80% da administração foi colocada em home office e reduzimos a atividade em 50% na fábrica e filiais. Também diminuímos os turnos para evitar a concentração de pessoas; ampliamos os horários para almoço, que passaram a ser feitos fora dos refeitórios, em local aberto e com distância de 1,5 metro; reforçamos o uso dos equipamentos de proteção individual e colocamos mais pias para lavar as mãos, além de maior atenção à limpeza no chão de fábrica. A decisão mais importante e difícil foi não fechar por completo. Mas, com isso, conseguimos atender clientes, principalmente as cadeias logísticas de alimentos, medicamentos e agronegócio. Mantivemos as filiais em funcionamento pela preocupação com cliente, visando garantir manutenção e peças de reposição. Foi uma medida acertada. Agora, já entendemos melhor a realidade, a produtividade aumentou e percebemos forte engajamento do grupo. Com quem está em home office são mantidos contatos diários, visando acompanhar a saúde e lado psicológico. Temos funcionários com 30 anos de casa e tirá-los da fábrica é complicado. Precisamos manter a calma e refletir para superar esta crise, que é diferente, mas vamos sair mais fortes.

LUIZ CLAUDIO RAMOSCom o cliente interno tivemos a preocupação de comunicar, porque temos uma central de atendimento que cuida dos ativos de clientes de todo o Brasil. Do quadro de Joinville, colocamos 55% em home office e o restante trabalhou presencialmente, respeitando distância mínima e com atendimento por enfermeiros, porque dependiam de soluções e de sistemas para controlar os processos de movimentação de cargas diárias. Todos receberam os equipamentos de proteção necessários, como máscaras e álcool gel. Como em Joinville houve a suspensão do transporte coletivo, incentivamos a carona solidária e o uso de aplicativos. Conseguimos forte engajamento do grupo. Com o cliente externo realizamos reuniões virtuais diárias sobre o dia anterior e o seguinte, visando identificar as particularidades de cada segmento. Alimentos, por exemplo, teve um boom com o início da crise porque as pessoas começaram a estocar. Apesar de menos gente circulando, os roubos seguiram ocorrendo. São momentos de fragilidade em que temos que evitar prejuízos aos ativos dos clientes. Por fim, uma preocupação com o caixa da empresa, com pagamentos em dia. Temos um comitê de crise, que se reúne todas as semanas. O momento é de atenção, de cuidar das pessoas, em especial. Mas é temporário, tudo vai voltar ao normal. Mas como vai voltar é a grande dúvida.

FÁBIO LEITEAdotamos ações de comunicação transparente com os nossos 6 mil fornecedores e 3 mil funcionários. Falamos, principalmente, das boas práticas diárias de higienização, pois havia muito desconhecimento e variava de acordo com as regiões. Precisamos, inclusive, adaptar diferentes formas de comunicação. Parte dos colaboradores foi colocada em home office, mas para algumas funções é mais complicado o uso deste experiente. Estimulamos a carona solidária para evitar o transporte urbano. Para os soldados das lojas de locação, que ficaram abertas, investimos em proteções acrílicas, máscaras, luvas e álcool gel. Mesmo que o número de viagens tenha reduzido, é preciso ter gente para atender os clientes, que continuavam se movimentando. Temos um comitê de crise, que começou se reunindo todos os dias, agora uma vez por semana. Estamos avaliando como voltar com algumas funções, tomando por base o que está acontecendo em outros países. Tivemos grandes cuidados com os clientes, porque com a parada dos fornecedores precisamos antecipar faturamento de ativos e emplacamentos. Muitos clientes tinham projetos engatilhados e vários segmentos em atividade, demandando ativos. A área de locação truck tem mais de 1 mil equipamentos para atender segmentos de alimentos, bebidas, logística, agronegócio e, mais recentemente, madeira

TD – Quais setores mais sofreram com a crise e quais têm se mantido em situação normal?

FernandoA importação está em queda forte, principalmente pelas dificuldade das plantas funcionarem em outros países e pelo câmbio. Percebe-se que a China já retomou as atividades, mas com volumes menores de matéria-prima, a impressão é de que vai demorar para normalizar. O mesmo ocorreu com as exportações. No Brasil, Manaus foi muito prejudicada pela dificuldade de chegar matéria-prima. Algumas plantas fecharam por causa disto e outras pela pandemia. O varejo de alimentos e medicamentos seguiu forte, mas acabou tendo recuo pelos estoques elevados. Pelas informações que tínhamos dos escritórios de outros países, começamos a repassar aos parceiros locais. Muitos achavam que era exagero e não acreditavam, Manaus foi um caso. Motoristas eram instruídos a ter cuidados pessoais e com clientes, nos locais de coleta e entrega. Mas havia relatos de que algumas empresas estavam preparadas, outras não, inclusive obrigando motorista a descer do caminhão, contrariando a nossa instrução de só descer quando necessário.

Luiz O agronegócio vai seguir forte com a safra recorde de 251 milhões de toneladas de grãos. Para transportar as 9 milhões de toneladas adicionais serão necessárias 300 mil viagens a mais. A movimentação de navios entre o Brasil e a China já é muito intensa. Temos um desafio muito grande pelo uso de autônomos, que exige muita interação entre as pessoas, porque ainda não temos documento eletrônico. Isto precisa mudar. O segmento de e-commerce estourou, só o Carrefour, em um mês, triplicou as entregas. Vai precisar investir na plataforma de tecnologia, na operação na ponta, na logística. O marketplace está em alta e temos necessidades especiais no agronegócio. E no segmento de ifood não se tem reclamações. Os grandes centros urbanos foram os primeiros a parar e são um grande desafio.

Leonardo Tivemos problemas com a logística de componentes em função das montadoras, que é setor importante para a empresa. Por quase uma década focamos na produção de equipamentos, como furgões lonado e de alumínio, para o transporte de componentes. Neste segmento, as vendas de abril foram 90% inferiores a de março. Mas vemos oportunidades na atividade agrícola, com o escoamento de grãos. Abril foi melhor que os meses anteriores nesta área. Em alimentos, é grande a demanda de equipamentos para frigoríficos, assim como ocorre com medicamos. A logística de componentes, tendo São Paulo como grande mercado, está praticamente parada. Estamos buscando outras oportunidades para não baixar o nível de produção. Temos 10 fábricas, 28 filiais próprias e 5 mil funcionários. A atividade de implementos rodoviários teve crises de 2015 a 2017 e recuperou-se nos dois anos seguintes. Em 2019, produzimos 26,5 mil equipamentos. O primeiro trimestre deste ano foi excelente. Agora, veio uma frenagem abrupta, de surpresa.

Fábio O setor que mais sofre é o automotivo, quem está demandando é o varejo de alimentos e bebidas. Mas quer atendimento rápido e com novo perfil de compra. As pessoas estão optando por comprar em vasilhames maiores, para estocagem. Também seguem aquecidos os segmentos de fármacos e agronegócio, que como desafio a armazenagem. O e-commerce é uma verdade nas relações comerciais, a rotina de ir diariamente ao mercado será substituída pelos aplicativos. Isto vai exigir aumento nos tamanhos de baús e siders. Os equipamentos de proteção e produtos de higiene e limpeza serão grandes demandantes de logística. São Paulo, como estado, deve sofrer mais para se recuperar. As regiões Norte, Nordeste e Sul estão reagindo mais rapidamente.

TD – Qual o cenário que se tem para o pós-covid?

Leonardo – Acredito que devamos dar muita importância ao que disse Charles Darwin: “não é o mais forte ou inteligente que sobrevive, mas o que melhor se adapta ao momento”. Teremos uma nova realidade de negócios, o contato comercial será mais virtual e menos presencial. Estamos nos preparando para buscar as oportunidades que virão.

Luiz Em estudo feito pelo Banco Mundial sobre as 20 maiores economias, o Brasil aparece com retração de 5,3% no PIB. Espero que não seja verdadeiro. Só dois devem crescer: China e Índia, mas em taxas baixas. Creio que a hora é de união, o brasileiro é criativo e o país voltará ainda mais forte do que quando a crise começou. O governo precisa ajudar o setor logístico, pois dias melhores virão com um consumidor diferente.

Fernando Em termos globais se espera maior balanceamento na economia. A situação atual de colocar toda a produção mundial na China deve ser revista, o que trará mudanças ao transporte marítimo. O período é de adaptação. No Brasil, a empresa já trabalhava na digitalização, na busca da conectividade. Mas temos dificuldades da burocracia, precisa uma união de esforços para buscar isto. Mas é certo que processos de administração e finanças passarão a ser feitos de forma remota e os trâmites portuários revistos. A cabotagem é uma boa alternativa, porque permite transportar volumes grandes de um ponto para outro, tendo o rodoviário como parceiro, atuando de forma mais otimizada, com viagens curtas para levar contêineres aos navios. Atenderia bem às necessidades do Brasil, desde que vencidas algumas barreiras. Mesmo na crise, os portos seguiram atuando a pleno, porque o governo agiu rápido. Olhando para frente as pautas atuais devem continuar, simplificando processos e melhorando a eficiência da logística. Se discute agora o boom que virá, tipo tsunami. Assim como as cargas se foram de um dia para outro, elas também devem voltar na mesma velocidade, só não se sabe precisar quando. Mas nos próximos meses teremos uma fase difícil de atender o retorno. É preciso preparar as equipes desde já, porque teremos de trabalhar muito para dar conta das cargas que ficaram represadas. Esta crise deve fazer com que os seres humanos mudem os modelos de vida, será uma maneira diferente de ver a rotina, valorizando encontros, reduzindo o uso de celular e com relações humanas mais valorizadas. Só espero que não seja uma moda, mas saudável a todos.

Fábio Como expectativa creio que sairemos mais solidários, nunca tinha se vivido algo assim, ao contrário de outros países que passaram por guerras. Acredito em equipes mais solidárias, empresas mais sinérgicas e melhores relações comerciais. A retomada será em velocidades diferentes, dependendo de cada estado ou região, e dos efeitos do contágio. No negócio teremos de olhar a base dos clientes para atendê-los bem na volta. Neste período de escassez de dinheiro, a locação pode ser parceiro importante, deixando recursos para outras áreas. Precisamos de disposição para ouvir, entender e colaborar. Mas é triste ver como é dura atividade no transporte, com muito papel e transação manual. Precisa suavizar a vida do caminhoneiro.

André O que nos move é a esperança. Estamos trabalhando internamente para sermos melhores e produtivos, o momento é de refletir sobre o pós-covid. Já se tem informações de que 70% das transportadoras estão operando no vermelho e 40% mostram-se pessimistas. A logística será fundamental na recuperação. Os governos precisam pensar desde agora qual apoio será dado à atividade. Devemos sair desta guerra como fez o Japão em 1945, unidos para reconstruir o país.

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