Em Hannover, fabricantes apresentaram caminhões elétricos com maior autonomia, novas soluções de hidrogênio, motores mais eficientes, automação e tecnologias que também devem influenciar o mercado brasileiro
Redação TranspoData
Imagem, Divulgação
A indústria de veículos comerciais chegou à IAA Transportation 2026, em Hannover, na Alemanha, com uma mensagem cada vez mais evidente: a transformação do transporte pesado já deixou de ser uma promessa distante e começa a ganhar forma em produtos preparados para operações reais.
Realizada de 15 a 20 de setembro, a feira reuniu 1.589 expositores de 46 países e apresentou mais de 150 estreias mundiais e novos produtos. O evento recebeu mais de 140 mil visitantes, entre profissionais, especialistas e público geral, consolidando-se novamente como uma das principais vitrines globais para o futuro dos veículos comerciais.
Entre os grandes temas de Hannover estiveram os caminhões elétricos de longa distância, sistemas de recarga de megawatts, novas gerações de baterias, hidrogênio, combustíveis alternativos, conectividade, segurança e automação. Ao mesmo tempo, os fabricantes deixaram claro que o motor a combustão ainda terá papel importante na transição, recebendo novas tecnologias para reduzir consumo e emissões.
O resultado foi uma feira marcada menos pela substituição imediata de uma tecnologia por outra e mais pela diversificação das soluções para diferentes operações de transporte.
Elétricos começam a mirar longas distâncias

Um dos principais avanços apresentados em Hannover foi a evolução dos caminhões elétricos para operações de maior distância.
A MAN levou à feira uma nova geração do eTGX. Na configuração 4×2, o modelo pode chegar a 660 quilômetros de autonomia, enquanto uma versão 6×2 equipada com uma sétima bateria pode alcançar até 720 quilômetros, segundo a fabricante. O caminhão também recebeu melhorias aerodinâmicas, recuperação de energia e uma nova geração de baterias, com aumento de 10% na energia utilizável.
A empresa aproveitou ainda a IAA para reunir, pela primeira vez, sua linha completa de caminhões elétricos entre 12 e 50 toneladas, incluindo eTGL, eTGM, eTGS e eTGX. A estratégia mostra que a eletrificação já começa a ocupar diferentes segmentos, da distribuição urbana ao transporte de longa distância.


A Scania também chegou aos 720 quilômetros de autonomia. A fabricante desenvolveu uma configuração que adiciona baterias atrás da cabine, além dos módulos instalados no chassi. A solução acrescenta aproximadamente 356 kWh de capacidade instalada em uma configuração típica e foi desenvolvida para trabalhar com carregamento MCS, o sistema de recarga de megawatts.
A Scania também apresentou na IAA a nova geração Scania Dynamic, com foco em eficiência energética, aerodinâmica, conforto e segurança, além de novos serviços digitais para gerenciamento da operação.


Na Volvo Trucks, a eletrificação avançou ainda mais em duas frentes. A fabricante iniciou a produção em série de sua nova geração de caminhões elétricos pesados, incluindo o FH Aero Electric com Extended Range, capaz de alcançar até 700 quilômetros com uma carga. A linha também inclui as novas gerações elétricas do FH, FM e FMX, com autonomias de até 470 quilômetros.
Mas a Volvo foi além e apresentou um FH Electric preparado para combinações de até 80 toneladas. Na configuração de 64 toneladas, a autonomia pode chegar a 450 quilômetros, enquanto combinações de 74 e 76 toneladas podem alcançar até 420 quilômetros. O modelo também pode utilizar carregamento MCS de 680 kW. A evolução foi reconhecida durante a própria feira: a gama elétrica da Volvo recebeu o prêmio International Truck of the Year 2027, pela segunda vez concedido ao FH Electric.
Mercedes-Benz aposta em eletrificação e hidrogênio


A Mercedes-Benz Trucks apresentou uma estratégia mais ampla, combinando diferentes tecnologias. Um dos destaques foi o eActros Lowliner, versão elétrica desenvolvida para operações de alto volume que exigem menor altura do conjunto e utilização de megatrailers. O modelo utiliza tecnologia derivada do eActros 600, incluindo sistema elétrico de 800 volts, baterias LFP e eixo elétrico.
Na configuração com três baterias, são 621 kWh instalados e autonomia anunciada de aproximadamente 500 quilômetros. A produção em série está prevista para começar no segundo trimestre de 2027.
A empresa também apresentou o NextGenH2 Truck, movido a hidrogênio, que entra em uma nova fase rumo às operações com clientes. A Daimler Truck prevê uma pequena série de aproximadamente 100 veículos, com os primeiros caminhões chegando às operações reais ainda no fim de 2026.
O hidrogênio aparece, portanto, como complemento aos caminhões elétricos a bateria, especialmente em aplicações nas quais autonomia, flexibilidade e tempo de abastecimento são fatores importantes.
A Mercedes-Benz também mostrou o 130 Years Trucks Edition, edição especial limitada a 400 unidades, oferecida tanto com motorização diesel quanto elétrica, unindo a história da marca às novas tecnologias.
DAF amplia portfólio elétrico sem abandonar o diesel


A DAF apresentou uma das estratégias mais amplas da feira para combinar diferentes tecnologias. No campo elétrico, a fabricante ampliou a gama com os novos XG e XG+ Electric e novas configurações 6×2, 6×4 e 8×4. A marca também apresentou soluções específicas para construção, transporte de contêineres e operações que exigem maior capacidade de carga.
Os caminhões elétricos da DAF utilizam baterias LFP e já ultrapassam 550 quilômetros de autonomia, dependendo da configuração. A fabricante também apresentou novas disposições das baterias para aumentar a capacidade de carga útil.
Ao mesmo tempo, a DAF continua desenvolvendo seus caminhões a diesel. Entre as novidades estão configurações de cinco eixos para aplicações pesadas, novos chassis para transporte de veículos e recursos digitais de monitoramento.
A mensagem é semelhante à observada em outras fabricantes: a transição energética não elimina imediatamente as tecnologias convencionais, mas exige que elas também se tornem mais eficientes.
Renault Trucks aproxima o elétrico do transporte de longa distância


A Renault Trucks levou para Hannover uma nova geração de produtos elétricos e convencionais. O principal destaque foi o E-Tech T 780, caminhão elétrico para longa distância com autonomia de até 660 quilômetros. O modelo utiliza um novo eixo elétrico que libera espaço para maior capacidade de bateria e mantém a capacidade de carga útil e a compatibilidade com semirreboques convencionais.
A fabricante também apresentou o E-Tech T 585, com autonomia de até 500 quilômetros, e o E-Tech D14, voltado para distribuição urbana.
Mas a Renault Trucks também apresentou o novo motor DE13 R, destinado à linha 2027 de caminhões T, T High, C e K. O novo conjunto pode chegar a 540 cv e 2.800 Nm de torque, com redução de consumo e emissões de CO₂ de até 4% em relação à geração anterior, segundo a empresa.
A fabricante, portanto, segue uma estratégia de dois caminhos: ampliar rapidamente a oferta elétrica enquanto continua aprimorando a eficiência dos motores convencionais.
As fabricantes chinesas avançam sobre o caminhão pesado
Se os fabricantes europeus mostraram evolução tecnológica, a presença chinesa foi um dos movimentos mais observados da IAA 2026:
- A BYD apresentou o ETT 44, seu novo caminhão elétrico pesado 4×2. O modelo chega a 1.000 cv, utiliza bateria Blade de 651 kWh e tem autonomia anunciada de até 600 quilômetros. O sistema suporta carregamento de até 1,5 MW, podendo adicionar mais de 400 quilômetros de autonomia em cerca de 20 minutos, segundo a fabricante. A empresa também ampliou sua oferta europeia para veículos de 3,5 a 44 toneladas, incluindo modelos rígidos e soluções para diferentes aplicações.


- A MAXUS, marca pertencente ao grupo SAIC, apresentou o eDELIVER 420L, caminhão elétrico 4×2 de 42 toneladas para operações de longa distância. O modelo utiliza bateria CATL de 615 kWh e pode realizar uma recarga de 20% a 80% em aproximadamente 25 minutos, segundo a fabricante.
- A SANY apresentou uma família de cinco caminhões elétricos para aplicações logísticas, municipais e de construção. Entre eles está o e263S 4×2, destinado a conjuntos de até 42 toneladas e equipado com bateria LFP de 636 kWh.
- A FOTON também utilizou a feira para apresentar sua plataforma CAVAN BEACON, enquanto a Dongfeng apostou no hidrogênio, apresentando três veículos comerciais movidos pela tecnologia e uma nova plataforma modular de célula a combustível.
- Já a Skyworth chamou atenção por outro caminho: o Z9, caminhão elétrico 6×4 preparado para condução autônoma de nível 4. O veículo utiliza cinco sensores LiDAR, cinco radares de ondas milimétricas e dez câmeras de alta definição. A proposta inicial é utilizar o caminhão em ambientes controlados, como portos, terminais ferroviários e corredores logísticos dedicados.
- A Pony.ai também apresentou um caminhão elétrico autônomo de nível 4, desenvolvido em parceria com a GAC, com foco inicial em aplicações controladas e expansão para mercados internacionais.
Ford Trucks mira conectividade e zero emissão
A Ford Trucks levou à IAA o novo F-MAX, equipado com o motor Ecotorq Gen2, além dos modelos F-LINE Construction e F-LINE E, reforçando a estratégia da marca em eficiência, segurança, conectividade e mobilidade de emissão zero.
O foco da fabricante não ficou restrito ao trem de força. Sistemas de assistência ao motorista, conectividade e soluções destinadas à redução do custo total de operação também fizeram parte da apresentação.
Iveco combina novas gerações de motores e eletrificação
A Iveco também participou da IAA 2026 apresentando sua estratégia para diferentes segmentos do transporte comercial. A marca vem trabalhando simultaneamente na evolução dos motores de combustão, combustíveis alternativos e eletrificação, acompanhando a necessidade de oferecer soluções diferentes conforme a operação.
Essa diversidade foi uma das características mais evidentes da feira: enquanto alguns fabricantes concentram investimentos em caminhões elétricos de longa distância, outros mantêm uma estratégia de portfólio múltiplo, combinando diesel de maior eficiência, gás, biocombustíveis, eletricidade e hidrogênio.
Infraestrutura passa a ser parte do caminhão


Com tantas novidades elétricas chegando às estradas, a IAA 2026 também deixou evidente que a transformação não depende apenas das fabricantes.
O Megawatt Charging System (MCS) apareceu como uma das tecnologias fundamentais para viabilizar o transporte pesado elétrico de longa distância. MAN, Scania, Volvo, DAF e outras fabricantes apresentaram veículos preparados para carregamentos de alta potência.
A MAN, por exemplo, apresentou junto aos caminhões um ecossistema de infraestrutura de recarga e gestão de energia. A DAF também destacou soluções de carregamento e armazenamento de energia por meio da PACCAR Power Solutions.
A questão passa a ser, portanto, muito maior do que instalar carregadores. Frotas elétricas exigem planejamento energético, disponibilidade de potência, gestão inteligente da recarga e integração entre veículo e infraestrutura.
O caminhão está ficando mais conectado e automatizado


Outro ponto transversal da IAA foi a digitalização. A DAF apresentou recursos como atualização remota de software, diagnóstico preventivo, monitoramento de peso e sistemas de detecção de fadiga e distração.
A MAN mostrou novas tecnologias de assistência ao motorista, monitoramento de atenção e sistemas de segurança para pedestres e ciclistas, além de serviços digitais destinados a aumentar a disponibilidade dos veículos.
Na Mercedes-Benz, a estratégia inclui uma nova geração do Fleetboard, conectividade ampliada e sistemas de assistência, além do avanço dos projetos de condução autônoma desenvolvidos pela Torc.
A automação também ganhou espaço entre fabricantes chinesas, especialmente em aplicações controladas. A proposta apresentada pela Pony.ai e pela Skyworth indica que portos, terminais e centros logísticos podem ser alguns dos primeiros ambientes a receber caminhões altamente automatizados.
O que a IAA 2026 revela para o mercado brasileiro?


Para o Brasil, a IAA Transportation 2026 funciona como uma espécie de antecipação das tecnologias que devem ganhar espaço nos próximos anos.
O movimento merece atenção especial porque algumas das fabricantes chinesas que ganharam destaque em Hannover também estão olhando para o mercado brasileiro. Além disso, parte das tecnologias apresentadas na Alemanha pode aparecer na Fenatran 2026, criando uma conexão direta entre os dois eventos.
A grande diferença é que o mercado brasileiro possui características próprias. Biodiesel, biometano, infraestrutura energética, perfil das operações, distâncias rodoviárias e custo de aquisição fazem com que a transição tecnológica não aconteça exatamente no mesmo ritmo observado na Europa.
Ainda assim, os caminhos apresentados em Hannover ajudam a antecipar o que estará no centro das discussões: autonomia, capacidade de carga, tempo de abastecimento ou recarga, custo total de operação, conectividade e disponibilidade.
A IAA 2026 mostrou que a indústria não está apostando em uma única resposta para esses desafios. Caminhões elétricos de 600, 660, 700 e 720 quilômetros, modelos capazes de operar com até 80 toneladas, hidrogênio, motores a combustão mais eficientes, sistemas de recarga de megawatts e automação dividiram o mesmo espaço.
Para o transporte rodoviário, a transformação deixou de ser apenas uma questão de escolher um novo combustível. O próximo caminhão será parte de um ecossistema muito maior, conectado à energia, aos dados, à infraestrutura e à gestão da operação. E é justamente essa evolução que começa a sair dos pavilhões europeus para chegar às discussões do mercado brasileiro.
