Estudo feito pelo IPTC também aponta as principais causas que levam à esta situação delicada para o transportador
Redação TranspoData
Foto Banco de Imagens, Divulgação
O tempo médio de descarga (TMD) nos principais pontos de abastecimento de mercadorias na Região Metropolitana de São Paulo, no ano passado, foi de 5h09. Quase uma hora a mais do que o apurado em 2024, o que elevou os custos do transportador em 26%. É o maior tempo registrado nos últimos 10 anos – o anterior foi em 2016, com 4h27.
A elevação do TMD tem um impacto direto na produtividade. Com o caminhão parado, o custo de imobilização fica mais alto a cada espera. Isso reduz o número de viagens que seriam possíveis no dia, encarece a operação e até mesmo compromete prazos de entrega.
Para a economista e coordenadora de projetos do Instituto Paulista de Transporte de Cargas (IPTC), Raquel Serini, existem alguns fatores que ajudam a explicar o crescimento do tempo de permanência para a descarga. O principal deles é o descompasso entre a capacidade instalada dos pontos recebedores e o volume crescente de entregas, especialmente no varejo. O estudo evidencia, por exemplo, que somente 13% dos estabelecimentos têm vagas destinadas à carga e descarga. Em comparação, 87% deles têm vagas reservadas aos clientes.
Marcelo Rodrigues, presidente do Conselho Superior e de Administração do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas de São Paulo (Setcesp), enfatiza que a ineficiência causada pela demora aumenta o Custo Brasil. Além disso, há uma preocupação direta com as condições às quais os profissionais da operação são submetidos. “Muitos trabalhadores ficam horas aguardando em locais sem saneamento básico e opções adequadas para alimentação”, destaca. Ele acrescenta que diversos pontos recebedores não oferecem suporte mínimo para a espera, como banheiros e refeitórios.
Marinaldo Reis, diretor de Abastecimento e Distribuição do Setcesp, explica que a pesquisa é realizada anualmente há mais de 20 anos. “Esses índices nos oferecem base para discutir com os recebedores os prejuízos que os atrasos causam ao setor”, frisa. A edição de 2025 teve a coleta de informações entre junho e novembro, e contou com a participação de 175 estabelecimentos recebedores que foram questionados sobre a quantidade de docas, vagas de estacionamento disponíveis, e também como são feitas as devoluções de canhotos e de paletes.
Estruturas precárias

O levantamento também considera a infraestrutura dos pontos recebedores e, ao fazer isso, afere para cada estabelecimento um índice de eficiência no recebimento (IER). Segundo Raquel Serini, ao combinar percepções operacionais com os atrasos para o descarregamento, a pesquisa fornece um diagnóstico preciso da eficiência no recebimento de cargas e ajuda, tanto os estabelecimentos quanto às transportadoras, a tomarem decisões voltadas à melhoria contínua. “Com base nos dados, é possível enxergar onde estão os gargalos de infraestrutura e de procedimento, como docas insuficientes, falta de vagas de estacionamento, janelas de agendamento mal definidas e outros pontos que afetam diretamente os custos e a produtividade das operações”, explica a economista.
Marinaldo Reis destaca que também há escassez de pessoal para a conferência. “Outro ponto negativo são as divergências entre embarcador e recebedor, que nos atingem diretamente e nos deixam reféns de situações que fogem ao nosso controle. A burocracia também pesa, já que alguns recebedores impõem uma lista extensa de exigências para podermos descarregar”, afirma.
A economista acrescenta que existem exigências, como devolução posterior de paletes, exclusividade de veículo ou limitações de horário, aumentando o tempo de permanência do caminhão. “Somados, esses fatores criam um cenário onde o fluxo logístico cresce, mas o espaço físico e os processos não evoluem na mesma velocidade”, argumenta.
Realidade de cada segmento
A pesquisa também mediu o IER por setor de atividade, indicando que os atacadistas demoram cerca de 5h56 para o recebimento, enquanto nos home centers o tempo é de 4h33. O pior tempo para descarregamento está nos centros de distribuição (CDs), com espera de até 11h40. Contudo, costumam ter a melhor infraestrutura, enquanto nos supermercados, a média de espera para descarregar é de 3h05, menor tempo, embora sejam os locais com as piores condições de infraestrutura.
Na opinião de Marinaldo Reis, a demora especificamente nos CDs ocorre porque muitos destes locais dão mais atenção ao abastecimento da loja e separações para entrega, deixando o recebimento em segundo plano. “A urgência deles é conforme a conveniência, enquanto o compromisso do transportador é com a eficiência, ou seja: a mercadoria para nós tem que ser entregue sem avaria e no tempo certo”, ressalta.
Para melhorar este quadro, Raquel Serini acredita que algumas ações deveriam ser tomadas. Elenca como necessárias a ampliação e reorganização das vagas; expansão da capacidade de docas; flexibilização de procedimentos como devolução de paletes e exigência de exclusividade do veículo; e aprimoramento do sistema de agendamento, permitindo previsão de demanda. “Essas medidas não somente reduzem a espera, mas também melhoram a experiência do transportador e aumentam a eficiência operacional de toda a cadeia”, avalia.
Do lado dos estabelecimentos, os atrasos no recebimento provocam acúmulo de cargas, elevam o risco de ruptura de estoque e exigem o remanejamento de mão de obra para lidar com filas e reprogramações. Ou seja, a ineficiência no recebimento gera perdas para todos os envolvidos: transportadores, embarcadores, varejistas e, na ponta final de tudo isso, consumidores.
Diante dessa situação, o presidente Roberto Rodrigues comenta o que o Setcesp tem feito para mudar o quadro. “Divulgamos a pesquisa e orientamos o transportador sobre quais são os locais com deficiência em recebimento para que ele possa precificar seus custos adequadamente. Afinal, o prejuízo não pode ser só dele”, frisa.
Bons exemplos
O objetivo do IER também é reconhecer padrões de excelência, essenciais para uma logística mais eficiente. Considerando o melhor tempo médio de descarga e a melhor infraestrutura, o levantamento indicou que a rede de Supermercados Joanin teve o melhor índice de 2025. Por lá, o TMD foi de 2h. A título de comparação, na rede com pior IER, o TMD foi de 8h06. Já o estabelecimento com melhor evolução no ranking foi o Emporium São Paulo, que passou de 14º lugar em 2024 para 3º lugar em 2025.






