Em um mês de operação, programa federal já financiou mais de 280 caminhões, com 70% das operações beneficiando micro, pequenas e médias empresas. Análise de como o MoveBR redefine a equação econômica da renovação de frotas no Brasil
Redação TranspoData
Scania, Divulgação
O Move Brasil, lançado em janeiro de 2026, já está transformando a realidade econômica de quem opera transporte de cargas no país. Em apenas um mês, o programa federal liberou quase R$ 2 bilhões em crédito para renovação de frotas, com foco em eficiência, segurança e sustentabilidade. Os números iniciais revelam algo ainda mais significativo: 70% das operações beneficiam micro, pequenas e médias empresas, justamente o segmento que historicamente enfrenta maior dificuldade de acesso ao crédito.
Para empresários do transporte, o MoveBR representa mais do que um incentivo conjuntural. Funciona como instrumento estruturante que redefine a viabilidade econômica de decisões críticas: renovar a frota, modernizar operações, reduzir custos operacionais.
Os dados do primeiro mês de operação do MoveBR são reveladores. Quase R$ 2 bilhões em crédito liberado. Mais de 280 financiamentos contratados apenas pela Scania, maior fabricante de caminhões do Brasil. Setenta por cento dessas operações destinadas a empresas com até 20 funcionários ou faturamento reduzido. Esses números não são meros indicadores de demanda reprimida. Revelam uma mudança estrutural no acesso ao crédito para renovação de frotas.
Historicamente, pequenas e médias transportadoras enfrentavam duas barreiras críticas: taxas de juros elevadas e exigências de garantias que comprometiam seu fluxo de caixa. O MoveBR reduz ambas as barreiras, tornando a renovação de frotas economicamente viável para empresas que antes consideravam essa decisão impossível.
Engenharia financeira que funciona

O programa permite financiamento de até 100% do veículo, em até 60 meses, com taxas a partir de 0,99% ao mês para pessoa física e 1,05% ao mês para pessoas jurídicas. Essas condições são diferenciadas não por serem extraordinárias, mas por serem acessíveis. Para uma transportadora que opera com margens reduzidas, a diferença entre uma taxa de 5% e 1% ao mês representa economia significativa ao longo de 60 meses.
O Scania Banco, agente financeiro credenciado ao MoveBR, oferece atendimento consultivo que simplifica a contratação. Simulações personalizadas, suporte completo para documentação e agilização de processos transformam o que era burocracia em fluxo operacional. Essa estrutura de suporte não é detalhe administrativo. É fator crítico para que pequenas empresas, com equipes reduzidas, consigam acessar o programa sem desviar recursos de operações.
Um caso prático ilustra como o MoveBR funciona na realidade operacional. A Boaventura Transportes, empresa com 20 anos de mercado e sede em Santa Isabel (SP), adquiriu um Scania semipesado P 280 6×2 via MoveBR. O veículo será utilizado em rotas de e-commerce entre São Paulo e Rio de Janeiro. É o décimo primeiro Scania da frota e o primeiro financiado pelo Scania Banco.
Mas o impacto vai além dessa transação individual. Como observou o diretor da empresa, o programa cria um efeito cascata: quem vende o seminovo pode comprar um novo, renovando progressivamente as frotas. Quem tinha capital imobilizado em veículos antigos consegue liberar recursos. Operadoras que adiavam decisões de renovação agora conseguem viabilizá-las. O mercado de seminovos ganha movimento. O mercado de novos ganha volume.
O MoveBR foi desenhado com foco em “eficiência, segurança e sustentabilidade”. Mas a sustentabilidade não é o objetivo principal. É consequência. Quando uma transportadora renova sua frota, naturalmente escolhe veículos mais modernos, com motores mais eficientes, menor consumo de combustível e menores emissões. O incentivo econômico (redução de custos operacionais) alinha-se ao benefício ambiental (redução de emissões).
Para empresários do transporte, essa convergência é estratégica. Renovação de frotas deixa de ser decisão que sacrifica rentabilidade em nome da sustentabilidade. Passa a ser decisão que melhora rentabilidade enquanto reduz impacto ambiental. O MoveBR torna essa convergência economicamente viável.
O programa é fruto de esforço conjunto entre governo federal, Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) e Sindicato dos Trabalhadores. Esse diálogo permanente na cadeia de transporte é significativo. Indica que o MoveBR não foi desenhado por burocratas desconectados da realidade operacional, mas por atores que entendem os desafios concretos do setor.
Para empresários, essa estrutura de diálogo oferece segurança. Programas que contam com participação de entidades representativas tendem a ser mais robustos, com menos risco de descontinuidade política. O MoveBR, nesse sentido, não é apenas incentivo de curto prazo, mas instrumento estruturante para retomada do transporte e da indústria.
Os benefícios do MoveBR traduzem-se em impactos operacionais concretos: manutenção do emprego (renovação de frotas gera demanda por manutenção, peças, serviços), modernização da frota de caminhões (redução de idade média da frota), redução de custos operacionais (combustível, manutenção, seguros), aumento da eficiência energética (motores modernos consomem menos).
Para uma transportadora que opera com margens de 5% a 10%, a redução de 15% a 20% em custos operacionais (combustível, manutenção, pneus) pode significar a diferença entre lucro e prejuízo. O MoveBR torna essa redução economicamente viável.
Renovação de frotas como prioridade nacional


O MoveBR sinaliza que renovação de frotas é prioridade nacional. A idade média da frota brasileira de caminhões está acima de 15 anos em muitos segmentos. Veículos antigos consomem mais combustível, geram mais emissões, exigem manutenção mais frequente e cara, e representam risco maior de acidentes. A renovação é imperativa, não apenas econômica, mas de segurança pública e ambiental.
O programa reconhece que essa renovação não acontecerá espontaneamente se deixada apenas ao mercado. Pequenas e médias transportadoras, que representam a maioria do setor, não têm acesso a crédito em condições viáveis. O MoveBR corrige essa falha de mercado.
Para transportadoras que conseguem acessar o MoveBR, a renovação de frotas oferece oportunidade de reposicionamento competitivo. Veículos modernos permitem operação em rotas que exigem tecnologia específica (rastreamento, telemática, sistemas de segurança). Reduzem tempo de parada para manutenção. Melhoram a imagem da empresa junto a clientes que valorizam sustentabilidade.
A pergunta estratégica para empresários não é “devo renovar?”. É “como aproveitar a renovação para reposicionar minha empresa no mercado?”.
O MoveBR cria oportunidade, mas não elimina desafios estruturais. Transportadoras que acessam o programa precisam garantir que a redução de custos operacionais seja suficiente para cobrir as parcelas do financiamento. Precisam gerenciar o risco de que mudanças nas condições de mercado (redução de demanda, pressão de preços) comprometam a viabilidade do investimento.
Além disso, a disponibilidade de crédito não resolve questões de gestão operacional. Uma transportadora com gestão inadequada pode renovar a frota e ainda assim não conseguir rentabilidade. O MoveBR é ferramenta, não solução mágica.
