Caminhões recuam, ônibus avançam e o Brasil entra em 2026 com cautela a despeito dos sinais positivos
Mauro Cassane
Imagem, Divulgação
O ano passado terminou como o setor já esperava: com queda nas vendas de caminhões e alívio em ônibus. Ao longo de 2025, foram licenciados 110,9 mil caminhões no Brasil, número que representa retração de 8,6% em relação a 2024. A compensação veio com o mercado de ônibus com 28,8 mil unidades emplacadas e crescimento de 4,2% na mesma base de comparação.
Sem alívio nos juros, os financiamentos para caminhões ficaram engessados impactando negativamente nas vendas. Mesmo quem precisa de renovação, por cautela e expectativa de juros melhores, resolveu segurar as novas aquisições. Já o segmento de ônibus, mais influenciado por políticas públicas, especialmente o segmento urbano, foi mais favorecido.
A despeito da retração, o mercado de caminhões manteve uma característica estrutural do Brasil: a forte concentração nos segmentos de maior porte. Os caminhões pesados e semipesados responderam por mais de 80% das vendas, com destaque para os pesados, que ampliaram participação relativa no total do mercado.
Esse comportamento revela que, apesar do cenário mais desafiador, operações ligadas ao agronegócio, à logística de longa distância e ao transporte de grandes volumes continuaram demandando veículos de maior capacidade. Em contrapartida, os segmentos de caminhões leves e médios foram os mais penalizados, mais sensíveis ao elevado custo do financiamento e à desaceleração do consumo urbano.
O ranking de vendas de caminhões em 2025 reforça a força das montadoras já consolidadas no país. Volkswagen Caminhões e Ônibus e Mercedes-Benz lideraram o mercado, somando juntas mais de 54% de participação, seguidas por Volvo e Scania, que mantêm forte presença no segmento de pesados. Iveco e DAF completam o grupo das seis marcas que concentram praticamente todo o mercado nacional de caminhões.
Entre as marcas emergentes, especialmente as de origem chinesa, o avanço segue gradual. A Foton foi a mais representativa entre elas, superando a marca de mil unidades no ano passado. Ainda com participação inferior a 1%, o movimento indica uma estratégia de entrada progressiva, focada em nichos, frotistas regionais e construção de rede.
O alívio nos ônibus

Na contramão dos caminhões, o mercado de ônibus teve desempenho positivo em 2025. A liderança absoluta da Mercedes-Benz, com cerca de metade das vendas, foi acompanhada por crescimento consistente de Volkswagen Caminhões e Ônibus, Iveco e encarroçadoras tradicionais.
O avanço foi puxado principalmente pelos ônibus urbanos, beneficiados por programas de renovação de frota, maior atenção à mobilidade coletiva e projetos públicos, incluindo transporte escolar. O segmento rodoviário permaneceu mais estável, acompanhando a recuperação gradual do transporte de passageiros em rotas de média e longa distância.
Desempenho fraco em momento positivo


O desempenho do setor de caminhões em 2025 não pode ser analisado isoladamente. O ano foi marcado por melhora consistente dos fundamentos macroeconômicos. A inflação, embora ainda acima do centro da meta, mostrou-se mais controlada, permitindo maior previsibilidade para empresas e consumidores, conforme análises do Banco Central do Brasil.
O PIB brasileiro cresceu em torno de 2%, sustentado principalmente pelo agronegócio, serviços e exportações. O país também registrou um dos menores índices de desemprego da série histórica, ampliando renda e consumo e esse impacto poderá ser mais observado neste ano com aumento de consumo. A balança comercial permaneceu fortemente positiva, reforçando o papel do Brasil como grande exportador de commodities agrícolas e minerais — fator diretamente ligado à demanda estrutural por transporte rodoviário.
O problema é mesmo os juros elevados ao longo de 2025. Com índices proibitivos, qualquer financiamento se torna um martírio financeiro para frotistas que operam com margens apertadas. Esse fator explica, em grande parte, a retração do mercado, mas não pode ser interpretado como uma potencial crise estrutural.
2026: cautela no curto prazo


Olhando para 2026, o cenário combina cautela no curto prazo com fundamentos promissores no médio e longo prazo. A expectativa de inflação mais sob controle, possível flexibilização gradual da política monetária e nova safra agrícola robusta criam condições para retomada gradual da demanda por caminhões, sobretudo nos segmentos de maior porte.
Outro ponto positivo é um potencial crescimento do e-commerce impulsionado por um desemprego abaixo de 6%. Mais emprego gera, evidentemente, mais consumo. E mais consumo precisa de mais veículos para logística urbana.
No caso dos ônibus, a tendência é de manutenção de um mercado mais previsível, ancorado em políticas públicas, mobilidade urbana e projetos de descarbonização de frotas.
O ano passado se comportou exatamente de acordo com as expectativas. Foi um ano de ajuste para o setor de caminhões e ônibus no Brasil. Mais do que um sinal de fraqueza, os números indicam reorganização de ciclo, em um país que segue altamente dependente do transporte rodoviário e que entra em 2026 com bases econômicas mais equilibradas do que em períodos anteriores. Só falta um olhar mais empático do Banco Central!


