Adriano Rishi assumiu em maio deste ano a presidência da Cummins Brasil em substituição ao carismático Luis Pasquotto, que depois de quase três décadas na empresa, se aposentou. Rishi, que ingressou na Cummins como estagiário em 1995, é engenheiro, e fez carreira na empresa.

Profissional de confiança de Pasquotto, Rishi recebeu o bastão do ex-chefe com a missão de operar uma grande transformação digital na empresa. Sua maior missão é deixar bem claro ao mercado, e a toda sociedade, que a Cummins deixou há muito tempo de ser apenas uma respeitável fabricante de motores e agora é uma empresa que oferece sistemas integrados de mobilidade.

Nesta entrevista exclusiva, como parte dos conteúdos especiais sobre os 50 anos da Cummins no Brasil, Rishi nos conta um pouco de sua visão sobre o futuro da empresa e das grandes transformações tecnológicas que transformarão o bom e velho motor a Diesel em propulsores mais sustentáveis e, sobretudo, ecológicos.

Já é possível estimar até quando teremos motores a diesel para aplicação veicular no Brasil? E como serão esses motores sob o ponto de vista ambiental?

Na visão estratégica da Cummins, o diesel ainda vai predominar ao longo desta década. 2022 será o último ano do Euro V /P8 para veículo comerciais e nós estamos prontos para atender às normas de emissões do Conama, que estabelece redução de cerca de 77% de NOx e de aproximadamente 66% de material particulado em relação ao Proconve P7 (Euro V).

Neste projeto, os nossos investimentos que já somam R$ 170 milhões e o pacote da Cummins contempla soluções completas e integradas, como a nova plataforma de motores eletrônicos Euro VI (2.8, 3.8, 4.5, 6.7, 9, 12 e 15 litros), além das opções a gás (9, 12 e 15 litros), filtros, turbos e os novos sistemas de pós-tratamento, U Module e Single Module, mais leves e eficientes, que trazem diversas vantagens para os usuários e montadoras.


Sob o ponto de vista ambiental, além das reduções de NOx e MP, já citadas, a Cummins desenvolveu novos sistemas eletrônicos mais modernos para garantir o atendimento às normas. Vale acrescentar também que as ações para a redução dos impactos ambientais vêm sendo desenvolvidas desde a década de 1990 pela Cummins no mundo e o Brasil não está fora. Nossos motores a diesel e a gás natural já eliminaram em mais de 95% a emissão de dois contribuintes principais para a poluição dos motores a diesel. Enquanto isso, as metas das instalações da companhia – as emissões corporativas – , entre 2014 e 2020, reduziram o equivalente à remoção de mais de 100 mil carros das estradas por um ano.

Como a Cummins está se reinventando para fugir do “efeito Kodak”?

Há uma certa incompreensão do que a Cummins faz. A empresa não é sinônimo de fabricante de motores a Diesel. A nossa empresa sempre foi uma indústria de soluções de motorização veicular.

Em 2021, completamos cinco décadas de operações no Brasil e uma das palavras que melhor definem a nossa trajetória para mim é TRANFORMAÇÃO. Nesses 50 anos, a Cummins mudou os negócios de seus clientes, a vida dos colaboradores e as comunidades onde está inserida.

E daremos continuidade com o nosso propósito de impulsionar um País mais próspero, com crescimento econômico e sustentabilidade ambiental. Em estratégia que contempla a diversificação energética, anunciamos a chegada da Unidade de Negócios New Power na região, um dos marcos mais importantes na história da empresa no País, sob a liderança do diretor de Vendas, Mauricio Rossi.

Com isso, passamos a oferecer no mercado brasileiro, motores elétricos, as células de combustível e, principalmente, o hidrogênio, essenciais no contexto carbono zero para o Brasil. E esta gama de soluções chega alinhada a uma visão estratégica de escala mundial dedicada a ao nosso nicho de mercado e aplicações.

É possível desenvolver veículos comerciais híbridos considerando motores do Ciclo Diesel?

Com a chegada da Unidade de Negócios New Power, a Cummins está pronta para oferecer soluções híbridas por meio de nossos sistemas elétricos ou célula de combustível, de acordo com o projeto do cliente. Mas estamos colocando mais foco em soluções 100% elétricas ou com célula de combustível, pois são 100% limpos, não emitindo poluentes.

Qual o papel e a visão da Cummins quando pensamos em eletromobilidade?

Em nossa estratégia, a diversificação energética, com propulsores a diesel e a gás cada vez mais limpos, motores elétricos, as células de combustível e, principalmente, o hidrogênio, serão essenciais no contexto carbono zero para o Brasil.

Os elétricos e motores a gás ganharão espaço gradativo a partir de maior demanda em nichos específicos, como o de coleta de lixo e sucroalcooleiro. As montadoras caminham para ter variadas opções de motorização em seus catálogos aqui no Brasil e nós já estamos oferecendo soluções de propulsão elétrica para caminhões e ônibus entre 6 e 26 toneladas. O pacote de eletrificação principal da Cummins inclui conjunto de baterias, sistemas de controle e motores de tração que podem ser combinados, de acordo com o projeto do cliente.

Entre diesel, elétrico, fuelcell e gás, algumas tendências começam a se delinear no País. Nas entregas noturnas de e-commerce, por exemplo, fica claro não haver espaço para veículos a diesel. Neste segmento os veículos elétricos, movidos a célula de combustível ou a hidrogênio, terão prioridade.

No caso da coleta de lixo devem predominar os caminhões a gás, com cases de empresas que já produzem seu próprio combustível baseado em biomassa. Atualmente, o biometano é extremamente puro dentro do aterro sanitário, mais vantajoso que o gás natural, atingindo perto de 96% de gás metano. No caso dos motores Cummins, quanto maior o número de metano, melhor é a equação e a produtividade.

As opções de motores a gás Euro VI, de 12 e 15 litros, também entram no pacote de soluções da companhia para uso em caminhão porta a porta de 48 a 50 toneladas. Nesse caso, o público em vista é o grupo sucroalcooleiro, que a partir da cana de açúcar gera biomassa que, por sua vez, gera biogás. Ou seja, as usinas podem usar esse combustível oriundo do processo de produção do álcool, que além de mais econômico, traz a vantagem de ter alto poder calorífico.

Ao considerar os exemplos citados, a Cummins enxerga que muitos segmentos dependentes do transporte tendem a produzir seus próprios combustíveis, ou seja, a matriz energética vai deixar de ser 100% adquirida de fontes existentes. Vai passar a ser conjugada; quem precisar de diesel vai comprar, mas quem tiver acesso à biomassa poderá fazer seu próprio gás e quem puder ter um eletrolisador para fazer eletrólise vai produzir seu próprio hidrogênio.

No que tange às alternativas ao diesel, os veículos elétricos, carregados por bateria, já são uma realidade. Mas o futuro está na célula de combustível. Nas pesquisas mais recentes da Cummins, os veículos à bateria serão uma ponte para os que utilizam células de combustível e hidrogênio. São esses veículos que vão permitir 100% de redução dos particulados e de toda a contaminação que temos hoje. O futuro está no hidrogênio!

Ao destacar que o uso do hidrogênio, como combustível de propulsão para os veículos que utilizam célula de combustível, a Cummins traz ao mercado brasileiro nova linha de módulos de células de combustível, oferecendo múltiplas possibilidades que podem ser combinadas para a perfeita adequação ao projeto do cliente.

Há também boas perspectivas para o uso industrial do hidrogênio. Indústrias de geração de energia podem usar os eletrolisadores Cummins. Hoje no Brasil são três os modelos ofertados: o HySTAT®-100 (0.1-0.5MW), HyLYZER®-500 (2.5MW) e o HyLYZER®-1000 (5MW).


Na perspectiva da Cummins, o cenário mais econômico é de que o transportador tenha um eletrolisador produzindo seu próprio combustível e o utilize em sua frota de veículos. A célula de hidrogênio é parte da eletrificação, mas não requer uma tomada, como acontece com o veículo elétrico.

Por meio de um painel solar ou um conversor eólico é possível gerar a energia para a produção do seu próprio hidrogênio com a nova gama de eletrolisadores da Cummins. Os novos equipamentos de geração de hidrogênio podem ser usados em diversas aplicações como veicular, indústria petroquímica, fertilizantes, entre outros.

Com recente aquisição da Nprox, empresa que fabrica tanques para armazenamento de hidrogênio, a Cummins reforça e consolida-se no mercado brasileiro como líder em tecnologia, trazendo mais um pacote completo de solução para o hidrogênio verde: módulos de célula de combustível, eletrolisadores e tanque para armazenamento.

Qual a importância da operação brasileira da Cummins considerando todas as demais fábricas da empresa no mundo? Quanto (em percentual) o Brasil representa nos negócios globais da Cummins?

A Cummins Inc., da qual a Cummins Brasil é subsidiária, tem presença mundial, com plantas industriais em todos os continentes. A unidade brasileira tornou-se bem competitiva nos últimos anos tanto pelas alterações da taxa de câmbio como por inúmeros ganhos de produtividade, eficiência e redução de custos implementados nestes últimos anos. Viemos assim aumentando nossa exportação de componentes (blocos e cabeçotes) para outras unidades da Cummins pelo mundo e, motores para países da América Latina. A representatividade da Cummins América Latina é de 5%.

Com todas as dificuldades do País, ainda é viável desenvolver projetos de ponta no Brasil? Estamos caminhando para sermos um mercado importador de inovações tecnológicas ou ainda temos condições de sermos um mercado exportador de tecnologias avançadas?

O Brasil tem grande potencial na questão de eletrificação, com matriz energética limpa. 83% da energia gerada no Brasil é renovável, por meio de hidrelétricas, o que o diferencia de outros países que ainda usam termelétrica. E isso, nós temos que aproveitar.

Nosso País tem ainda um grande potencial de se tornar um grande produtor do hidrogênio verde, o combustível promissor para a descarbonização, produzido por meio de recursos naturais renováveis, como a energia solar e eólica, é o que tem a maior capacidade disponível hoje, imediata, de água para ser usada como combustível pra produzir hidrogênio. Não existe outro lugar do mundo que tenha isso.

Quais são os planos de médio e longo prazo da Cummins para o Brasil?

Além de dar continuidade com os nossos negócios e cuidar das nossas comunidades e colaboradores, a Cummins assumiu compromisso muito forte com a descarbonização. É a nossa palavra de ordem e segue em ascensão em nossas ações, integrada à nossa visão estratégica de escala mundial e dedicada ao nosso mercado e as nossas aplicações.

As ações globais para redução dos impactos ambientais vêm sendo desenvolvidas desde a década de 90, como motores a diesel e gás natural, eliminando em mais de 95% a emissão de dois contribuintes principais para a poluição dos motores a diesel: partículas em suspensão e óxidos de nitrogênio. E o Brasil não está fora!

As metas das instalações da companhia, entre 2014 e 2020, reduziram o equivalente à remoção de mais de 100 mil carros das estradas por um ano. Isso no global.

O Planet 2050, nossa estratégia de sustentabilidade ambiental, focada em três áreas prioritárias – abordar as mudanças climáticas e as emissões atmosféricas, usar os recursos naturais da maneira mais sustentável e melhorar as comunidades -, inclui dois alvos científicos aprovados:

  • A redução das emissões absolutas de GEE (gases de efeito estufa) das instalações e operações da Cummins em 50%, o que é consistente com a manutenção do aquecimento global em 1,5 ° c acima dos níveis pré-industriais.
  • A redução absoluta do tempo de vida nas emissões de GEE da Cummins por meio de produtos recém-vendidos em 25%, níveis que incluem as emissões de um produto em uso por um cliente.


Agora, no curto prazo, falando especificamente do ano que vem, qual sua perspectiva para a economia do País? E como será 2022 para a Cummins?

2022 será o último ano do Euro VI/P7 e devemos ter uma economia mais aquecida no segmento de pesados. A perspectiva da Cummins é fechar 2021 entre 45 e 47 mil motores produzidos, crescimento de 57% em relação ao ano passado. Para 2022, nossa expectativa é crescer em torno de 10%, mas ainda é difícil fazer uma previsão pelo cenário que temos experienciado na cadeia de suprimentos.

Felizmente a gente tem conseguido manter a nossa entrega acima de 92%, graças à cadeia de suprimento global e as soluções que estamos buscando para contornar todas essas restrições, mas tem sido uma batalha a cada dia.

Nossa geração aprendeu desde cedo a identificar e conectar a Cummins como uma importante fabricante de motores. Como as gerações futuras vão identificar a Cummins?

A Cummins é uma empresa global e a corporação está comprometida com a inovação, seu talento, recursos e seus investimentos para reduzir o impacto no clima. Deixamos há bastante tempo de ser uma fabricante de motores e hoje somos lideres em tecnologia. Temos a inovação um valor enraizado em nossas ações e, por isso, aperfeiçoamos continuamente os produtos brasileiros. E acredito fortemente que assim as futuras gerações irão identificar a Cummins, como líder em tecnologia.

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