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Raízen reduz acidentes a nível zero com gestão e tecnologia

18/09/2018 18h27 Atualizado em 08/10/2018 17h58
 

Por Maria Alice Guedes

malice@transpodata.com.br

Os processos de melhoria contínua de gestão e tecnologia, adotados pela Raízen em suas operações de transporte rodoviário, são responsáveis pela queda registrada, desde 2011, em todos os indicadores de acidentes, incluindo os de alto potencial ou gravidade. De acordo com Eduardo de Lucena Neto, gerente de Operações de Transportes da Raízen, responsável pela área há sete anos, vindo de dezoito na Shell, tudo o que diz respeito à segurança rodoviária é muito importante dentro das operações da empresa. “Do esbarrão até um arranhão no caminhão, ou acidentes com afastamento e sem afastamento - todos os indicadores são mensurados", diz. 

O acidente com lesão, mas que não leva ao afastamento, segundo Lucena, saiu de um índice de 1,07, no início das operações para 0,05, o que significa uma redução de praticamente zero - afirma. Nos acidentes com lesão, ele diz que a queda foi de 0,18 para zero em 2017. “Ou seja, não houve nenhum afastamento. O índice de acidentes geral que considera qualquer esbarrão, mesmo que, sem nenhuma consequência para o caminhão ou para o carro de terceiros, registrado através da Central de Atendimento à Emergências da Raízen, também apresentou redução considerável, sendo de 1,91 para 0.31”, ele diz. 

Essas evoluções ocorreram, principalmente, pelo alto investimento em gestão. Explica que os profissionais que trabalham na ponta, mais de 4.500 motoristas, em sua grande maioria com formação até o Ensino Fundamental, têm nas mãos um veículo perigoso, e que dobra de risco quando se considera a carga que transporta. “O processo de gestão para uma operação que envolve milhares de motoristas, rodando 240 milhões de quilômetros por ano, precisa ser bastante robusto, desde a homologação de fornecedores adequados até a implementação de novas tecnologias que promovem o aumento da segurança em todas as operações de transporte”, afirma.

A Raízen impõe uma série de exigências às transportadoras com as quais trabalha, entre elas, o rigor nos processos de contratação do motorista, além de treinamentos e exames médicos que precisam ser realizados para que eles possam dirigir, adequadamente.

Tecnologias para prevenção de acidentes 

Para observar o comportamento dos motoristas de maneira frequente e saber se estão aplicando todos os conceitos aprendidos durante os treinamentos, a empresa adotou algumas ferramentas, entre elas, a Telemetria, para controlar a jornada do motorista que inclui descanso semanal, verificar frenagens bruscas e observar a velocidade na pista seca e na pista molhada.

A Telemetria, explica Lucena, difere do GPS que tem a finalidade de solucionar questões logísticas e de segurança patrimonial de risco de roubo, mas quando se trata de dirigibilidade e de direção segura para promover o nível de acompanhamento necessário a ser feito do profissional (motorista), o Barramento CAM é a ferramenta confiável para extrair informações fidedignas. “Identificamos a oportunidade de melhorar a atitude do profissional, fazendo uma espécie de Big Brother, com 4 câmeras instaladas em toda a nossa frota, sendo uma apontada para o profissional motorista, outra que mostra a visão dele, e mais duas na lateral do caminhão, possibilitando observar online, a qualquer momento, se o motorista está cometendo desvios para tomarmos a decisão de fazê-lo parar e verificar o que está acontecendo com aquele profissional”, esclarece. 

Diferentemente do carro, ele explica que caminhão foi feito para não se usar o freio mecânico em grandes descidas. “Se o motorista não procede dessa maneira, acarreta o que a Fórmula 1 chama de fade ou espelhamento do tambor, e perde completamente o freio. O monitoramento por imagem nos permite identificar também de que forma o profissional está utilizando o freio”, diz. 

Através da análise de dados coletados pela telemetria, a companhia vem realizando uma série de medições sobre violações e já conseguiu reduzir também o número de violações mensais que era de 0,35 por motorista para o patamar de 0.21, o que significa, segundo ele, menos de uma ocorrência de violação por mês. “Essa tecnologia eleva a eficiência do trabalho que a gente faz a longo prazo, com base numa cultura que a companhia prega há mais de vinte anos”. 

Outra tecnologia implementada pela Raízen para evitar acidentes graves como tombamentos que geram derrames e incêndios, foi o Rotograma Falado - um regulador de voz que diz para o motorista, entre outras coisas, quando ele deve reduzir a velocidade. O equipamento desenvolvido juntamente com provedores de tecnologia como a Sascar, empresa de tecnologia do Grupo Michelin, e testado por parceiros da Raízen, como transportadores de açúcar, entre outros, apresenta importantes aplicabilidades como a de coibir um dos hábitos mais nocivos e danosos, adquiridos pela população, que é o da utilização do celular enquanto se dirige. “Se já é perigoso para os automóveis, imagine para os caminhões carregados com mais de 50 toneladas”, alerta. Ele ressalta que uma das principais regras da operação da Raízen é a do motor do caminhão ligado e o celular desligado. 

Celular na direção é a terceira maior causa de mortes no trânsito

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) revelou que o uso de celular na direção é a terceira maior causa de mortes de trânsito no Brasil. Ao todo, são 150 vítimas por dia e 54 mil por ano, segundo a associação. Essa combinação só perde em números de fatalidades para o excesso de velocidade e a embriaguez ao volante.

A falta de fiscalização nas vias e rodovias, segundo Lucena, obriga as empresas a criarem mecanismos e regras de segurança que sejam, obrigatoriamente, cumpridas em todas as pontas. Graças à tecnologia, já é possível checar e monitorar o cumprimento das normas estabelecidas, além de manter uma interface em tempo real das transportadoras com os motoristas. Nos casos de descumprimento, como por exemplo, a utilização do celular enquanto dirige, a transportadora, por sua vez, envia uma mensagem, que pode ser a ordem para desligamento imediato do aparelho ou até mesmo, que o motorista pare o caminhão para que sejam tomadas as devidas ações. 

Centro de Controle Operacional Raízen

A fim de obter monitoramento total das operações, capturando ao máximo qualquer espécie de inconformidade para atuar de forma ainda mais sincronizada com transportadores e motoristas, a empresa está implantando um Centro de Controle Operacional, que deve estar concluído até o final de 2018, a partir do qual passará a ter acesso direto a todas as imagens e informações dos caminhões das transportadoras, e principalmente do comportamento dos seus motoristas. 

O conjunto de processos de gestão, aliado às novas tecnologias, tem promovido uma economia operacional em torno de R$ 20 milhões por ano - declara -, considerando benefícios de otimização do tempo das tarefas até os processos trabalhistas e criminais relacionados a terceiros envolvidos com lesões de menor ou maior gravidade até à perda do equipamento ou do produto. 

Dessa forma, a empresa percebe estar contribuíndo para elevar a economia operacional, inclusive, das suas transportadoras parceiras que antes de implementarem as mesmas tecnologias, despendiam mais tempo e dinheiro em suas oficinas preventivas e corretivas, em função do índice de acidentes. Ele cita o caso de um dos seus fornecedores, que recebia em média 60 caminhões na oficina, e que após a implementação do sistema de telemetria com câmeras e rotograma falado, viu suas oficinas esvaziarem, frente à significativa redução do número de acidentes. “Há uma série de benefícios na utilização das novas tecnologias que os empresários vislumbram rapidamente”, diz. 

Exigências para seleção ou contratação de transportadoras 

A Raízen conta com mais de 35 transportadoras contratadas, adotando como premissa a confiança e a parceria de longo prazo com seus fornecedores. Além de responder ao questionário dos inúmeros requisitos para uma possível seleção, as empresas passam por uma auditoria em que se observa, antes de tudo, sua gestão estratégica. O segundo maior OPEX da companhia, segundo Lucena, é o transporte, representando um custo de aproximadamente R$ 1,7 bilhão por ano. 

Para fazer parte desse hall de fornecedores, a empresa deverá comprovar saúde financeira e fôlego para altos investimentos. A tecnologia ocupa posição estratégica nesse pacote de prerrogativas, sendo uma das mais contempladas pela companhia que não prescinde dos investimentos de seus fornecedores em todos os sistemas que elevam e garantem a segurança dos motoristas e da operação. “Costumo dizer que mais importante do que uma frota própria de 300 caminhões, com menos de dois anos de idade, o que naturalmente faz parte dos requisitos de quem quer operar bem, é a competência de gerir bem os seus processos”, afirma. 

Capacidade de liderança e participação de Comitês de Segurança estão entre os principais requisitos de avaliação. “Consideramos indispensável que a transportadora esteja em dia com as Leis de Conformidade, a exemplo da Lei nº 13.103/2015, respeitando, criteriosamente a jornada e o cumprimento das normas de velocidade praticada pelos motoristas que devem passar por diversos treinamentos e estar com todos os exames médicos em ordem”, diz. 

Com o objetivo de incentivar, prestigiar e premiar transportadores e motoristas que atingem o apogeu dos índices de segurança, eficiência e performance, a companhia promove um evento anual, chamado de Liga dos Campeões (transportadores) e Rodeio dos Caminhões (motoristas) com direito a estadia de quatro dias junto com a família em diferentes resorts do país. Para a final, cerca de 50 motoristas são selecionados em etapas classificatórias ao longo do ano, e os três primeiros vencedores nos quesitos de violações, viajam com suas famílias e podem ganhar prêmios como um carro, uma moto ou um home theater, respectivamente. No mesmo evento, transportadores e gestores também são premiados de acordo com seus indicadores de eficiência. “É um item importante da nossa gestão. Embora a segurança deva ser a obrigação de todos, reconhecer também é importante”, afirma.

Tabelamento de Frete ou Piso Mínimo de Frete 

A respeito da polêmica que aflige toda a cadeia produtiva do país - o Piso Mínimo de Frete - Eduardo Lucena entende que um mercado livre se auto regula e a ingerência do governo provoca grandes confusões no mercado. Para a Raízen, ele afirma que não houve aumento substancial do custo do frete porque a companhia já cumpria com os requisitos legais que, inclusive, fazem parte da cultura da empresa. “O frete que a gente paga hoje é muito próximo da primeira tabela que o governo estabeleceu. Precisamos fazer pequenos ajustes, porque dependendo do raio da operação, pagávamos até acima dos valores estipulados. Na média, não vamos pagar nenhum centavo a mais de frete para cumprir a Lei 13.703”, diz. 

Identificando onde começaram os verdadeiros problemas, ele aponta para o descasamento entre oferta e demanda de caminhões, incentivado pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI), pelo qual o BNDES financiou a aquisição de 770 mil caminhões com juros subsidiados de até 2% ao ano, onde mesmo quem não era do ramo de transporte, comprou caminhão, principalmente entre 2009 e 2013, contando que a economia cresceria pelo menos 4% ao ano por vários anos consecutivos. E aconteceu o contrário. 

O Brasil deveria estar caminhando, cada vez mais, para uma profissionalização, ele diz. “Independentemente de transportar combustível ou grãos, o caminhão é um equipamento que demanda ações de gestão, que uma pessoa só e dona do seu próprio negócio, nem sempre vai ter. Como podemos ter uma tabela que vai na contramão de uma operação eficiente do transporte rodoviário de cargas, tornando o País improdutivo ao perder competitividade nos mercados internacionais? A Raízen é uma empresa que faz exportação, fortemente, e precisa de eficiência com responsabilidade e segurança. Ainda assim não temos dificuldade para atender à tabela e nem vamos adquirir frota própria para nos eximir de seguir a Lei”, conclui Eduardo Lucena.

 

 

 

 
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