É preciso pensar no coletivo

 

Por Redação Transpodata

redacao@transpodata.com.br

Empossado no final do ano passado, Tayguara Helou é o mais jovem presidente da história do SETCESP – Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região, uma das mais representativas, e fortes, entidades regionais que reúne empresários de transporte do País. Helou é sócio-diretor da T.H.Tex e diretor de desenvolvimento e novos negócios do Grupo H&P Empreendimentos e Participações que reúne as empresas Braspress Transportes Urgentes, Braspress Logística, Aeropress Cargas Aéreas e Banco Urbano. Taybuara é filho de Urubatan Helou, presidente do Grupo H&P, empresário que começou e ergueu o império a Brapress.

Formado em business administration pela Bond University e com especialização em business management pelo Holmes Colleges, ambos na Austrália, Helou também possui MBA em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. O empresário foi premiado com o Troféu Destaque, nos anos de 2011 e 2015, pela NTC & Logística – Associação Nacional de Transportes de Carga e Logística por sua atuação na COMJOVEM Nacional – Comissão de Jovens Empresários e Executivos do Transporte Rodoviário de Cargas e é primeiro presidente de entidade proveniente deste projeto de preparação e valorização das novas gerações de empresários do setor.

Como vai funcionar esta parceria para oferecer treinamento aos motoristas por meio de simuladores?

Já é uma vontade antiga da Setcesp de ajudarmos os transportadores a qualificar ainda mais sua principal mão de obra, que são os motoristas. Tivemos uma experiência muito positiva na Braspress. A parceria é com a empresa Navig, do Luciano Burti, e nosso objetivo é oferecer cursos para tornar os motoristas mais eficientes.Praticamente desenvolvemos este simulador junto com a empresa. Vamos ter um simulador aqui mesmo em nossa sede (na capital paulista) e outra será móvel e vai atender as demandas de nossos associados em campo.

Como o senhor avalia o atual momento político e econômico do País e quais as perspectivas de curto e médio prazo para o setor de transportes?

É do conhecimento de todos que tivemos alguns anos de ouro no setor há pouco tempo atrás. De 2011 a 2014, posso dizer que tivemos quatro anos muito bons. E neste ótimo período tínhamos as mesmas empresas, os mesmos colaboradores, o mesmo governo e os mesmos embarcadores. Estes protagonistas estão todos aí. Mas a realidade agora é que temos uma tremenda insegurança política que vem afetando gravemente a confiança dos empresários em geral. Por falta de prudência e tato político chegamos a esta crise. O lado bom da história é que, na crise, o setor busca saídas, novas soluções, modelos inovadores de gestão, busca mais eficiência, melhorias.

Mas empresas estão quebrando.

Algumas devido aos atuais problemas, outras porque, com gestão ruim, não conseguiram sobreviver à crise. Mas insisto que agora é uma ótima oportunidade para mudarmos o Brasil para melhor. Para sermos um País verdadeiramente de primeiro mundo temos que acabar com esta indústria do interesse individual. É preciso pensar mais no coletivo. Temos que transformar este Brasil num país mais sério, onde leis, regras e contratos são respeitados. Não é mais possível tolerar mudanças de regras no meio do jogo. Isso gera grande incerteza e, claro, inibi investimentos. Temos sim que tomar um remédio amargo para sair desta crise e todo remédio amargo tem o efeito colateral. E o efeito colateral é o que estamos vendo agora.

“Com esta infinidade de impostos e leis trabalhistas antiquadas, a indústria nacional não consegue se modernizar tampouco ser competitiva”

O Brasil descobriu a corrupção só agora?

A Lava Jato fez com que o brasileiro se desse conta de que é possível punir exemplarmente a corrupção. Que havia corrupção, todos sabiam. Mas ninguém tinha coragem de denunciar. Com esta investigação em curso, com delações e prisões de pessoas que antes ninguém imaginava que poderiam ser presas, o brasileiro começou a se dar conta que é sim, agora, possível combater o mal da corrupção. O Brasil não descobriu agora a corrupção, mas compreendeu que começou a acabar aquela velha sensação de impunidade. Corruptos e corruptores vão pensar duas ou três vezes antes de cometer estes crimes. E muitos destes caras vão preferir não mexer mais com isso.

Como estes problemas afetaram o setor de transporte?

Penso que o setor de transporte é o termômetro da economia. É um múltiplo do PIB. Quando o PIB vai bem, o setor cresce até três a quatro vezes mais, pois transportamos insumos de toda cadeia. Há o transporte da matéria-prima, dos materiais, das embalagens e por aí vai. Mas a regra inversa também se aplica: quando o PIB cai, caímos também de três a quatro vezes mais.

Estes problemas econômicos causaram perdas de associados?

Curiosamente, não. Na verdade, a crise até fez com que mais empresas manifestassem interesse em se associar ao Setcesp. Nossos serviços, nosso engajamento e nossa busca em tornar a operação de nossos associados mais eficiente e mais forte são reconhecidos. E tanto trabalhadores como empresários sabem que atuar em grupo dá mais resultado do que lutar sozinho. Por outro lado, nossa inadimplência subiu. E é natural. Na crise, o empresário, em vez de deixar de pagar funcionário, acaba deixando de pagar a contribuição mensal à associação.

O mercado está mudando?

Sim, eu acho que o mercado está mudando. Grandes empresas do passado já não existem mais. Não se trata apenas da crise. Novos negócios vão surgindo, aquisições e fusões vêm acontecendo nos últimos anos. Isso é bom, muito positivo. Este movimento todo vem trazendo mais qualidade ao setor.

Há um excesso de oferta de caminhões atualmente, não?

Com certeza, mas por imprudência do próprio governo que em um passado muito próximo soltou créditos desenfreados e subsidiados para todo mundo. O resulto foi o que vimos: um corrida às compras. Nunca se vendeu tantos caminhões novos. Era comum, por exemplo, neste período, transportadores perderem motoristas que pediam a conta para se aventurar a comprar um caminhão novo com estes juros baixos. O sonho de se ter um negócio próprio parecia que seria mesmo realizado. Mas rapidamente este negócio retrocedeu, o governo mudou a regra, a economia começou a frear e o resultado é este: excesso de oferta, frete baixo e recessão. Não adianta só incentivar a venda de caminhões, é preciso planejamento para se criar condições sólidas para um crescimento econômico sustentável e duradouro.

O problema foi o crédito fácil?

O problema foi não termos uma política séria de crédito. É diferente. O país precisa de uma política mais responsável de crédito. Não adianta oferecer crédito de qualquer jeito pois o resultado é o que aconteceu entre 2011 e 2013: compra sem necessidade, excesso de oferta de caminhões, mercado falsamente inflado. Estes equívocos perpetrados pelo governo prejudicaram toda a economia e, mais ainda, nosso setor. Com excesso de caminhões no mercado, caiu o valor do frete, a rentabilidade despencou, eficiência foi comprometida, qualidade e produtividade evaporaram. Se houver a tão esperada segurança política, o mercado vai voltar a crescer, mas não da maneira artificial como ocorreu entre 2011 e 2013.

Na sua opinião, quando voltará a crescer?

Quem conhece bem a dinâmica da economia brasileira sabe que uma de suas características é seu efeito pendulo. Na mesma velocidade que entramos na crise, saímos dela. Bem diferente dos demais países da América Latina que demoram a sair de uma crise e, ao sair, ficam anos para se recuperar, o Brasil sai com mais rapidez e mais fortalefortalecido. Certamente vamos voltar a crescer no segundo semestre, mas em um ritmo muito mais lento. Só precisamos ter mais segurança política. Com esta segurança, o Brasil vai para frente sem dúvida alguma. Nós precisamos de menos governo e mais iniciativa privada. O governo só precisa nos deixar trabalhar com tranquilidade.

“Acabou aquela compra emocional por um veículo ser mais ou menos bonito ou com base em relações de amizade. As grandes transportadoras avaliam tecnicamente os veículos e optam por aquele que atender especificamente suas necessidades”

Esta necessidade de se melhorar a infraestrutura do País pode ajudar neste processo de retomada de crescimento?

Sem dúvida que sim. Só o que é preciso se fazer de obras para melhorar a infraestrutura brasileira já seria suficiente para se contratar muita gente, fazer caminhões rodarem e, mais ainda, vender mais caminhões. Mas só isso, embora seja um ótimo começo, não vai adiantar. Temos que deflagrar um grande processo de verdadeira industrialização do Brasil. É um absurdo matéria-prima sair do Brasil, ser manufaturada nos países asiáticos e, de lá, seguirem para os maiores mercados consumidores do mundo: Estados Unidos e Europa. Ora, se estamos muito mais próximos geograficamente destes dois mercados, porque sermos apenas fornecedores de matérias-primas para a indústria que fica lá do outro lado do mundo? Já que o grosso da matéria-prima está aqui mesmo, não seria mais inteligente o Brasil também ter aqui uma eficiente e competente indústria para processar isso tudo e vender direto para os Estados Unidos e Europa? Faria muito mais sentido. E isso sim, aliado a uma ótima infraestrutura, nos faria crescer de maneira sustentável e a índices muito próximos aos chineses.

Mas o Brasil não é industrializado?

Nosso grande problema é que é muito caro produzir aqui. Mesmo com toda logística de levar matéria -prima daqui pra China e da China o produto manufaturado para os Estados Unidos e Europa, ainda assim o produto chinês chega a estes mercados com preços mais competitivos que o produto similar feito no Brasil que está muito mais próximo destes dois grandes mercados consumidores. Só ter indústria e não ser competitivo não adianta nada. E quem atrapalha a indústria é o governo. Com esta infinidade de impostos e leis trabalhistas antiquadas, a indústria nacional não consegue se modernizar tampouco ser competitiva. Há quem defenda esta lei trabalhista que, na verdade, prejudica sobremaneira os próprios trabalhadores. Criou-se uma indústria da CLT com escritórios especializados em propor ações aos trabalhadores com o firme propósito de extorquir as empresas. Todos saem perdendo com isso: trabalhador, empresa e todo o País. Enquanto não se promover uma modernização das leis trabalhistas brasileiras, o País não vai conseguir ser competitivo. E sem competitividade, não teremos um crescimento econômico e social sustentável. Ou seja, o trabalhador sempre será o grande prejudicado com esta lei arcaica e equivocada. Político e sindicatos defendem com unhas e dentes a CLT. Mas alguém precisa botar a mão neste vespeiro. É preciso fazer alguma coisa urgente. Por exemplo, se uma empresa promove um funcionário, melhora o salário dele e, com o tempo, nota que este funcionário não se adequou à nova função, ela pode até devolvê-lo às funções anteriores, mas não pode, pela leia da CLT, voltar ao salário original. Pois é proibido reduzir salários. Neste caso, só resta uma alternativa: demitir. Este é apenas um exemplo de como a CLT prejudica empresa e trabalhador. Mas políticos e sindicatos irresponsáveis defendem a CLT unicamente por demagogia. A CLT atrasa sobremaneira o desenvolvimento do Brasil. Uma mudança nesta lei anacrônica tornaria o País mais competitivo e, com certeza, geraria milhares de novos empregos.

Como fazer para tornar a Setcesp uma entidade que passe a ser ouvida por todos os setores da sociedade?

Este é nosso objetivo. O primeiro passo é ampliar nossa base, termos mais associados. Para isso estamos implementando melhorias em nossos serviços que devem ser acessíveis e úteis a nossos usuários. Estamos indo mais a campo. Também investimos fortemente na nova geração de empresários do setor, com nosso projeto “ComJovem” oferecendo cursos, palestras e dando voz ativa a estas novas lideranças. Este projeto vem dando muito certo, pois muitos destes jovens já estão agora no comando das empresas. E, com eles, não só a Setcesp mas todo o setor se fortalece. Esta nova geração, diferente dos pais que começaram o negócio na raça, têm formação acadêmica, sabe muito sobre gestão, possuem visão global, conhecem bem as boas práticas de gestão em países desenvolvidos e, desde cedo, foi muito bem preparada para assumir o negócio.

Como o empresário de transporte de hoje em dia opta por uma marca de caminhão em detrimento de outra?

Custo operacional. Caminhão é máquina. O empresário moderno busca isso: qual máquina pode me atender melhor para este tipo de demanda. Esta nova geração não compra caminhão movida pelo emocional, e sim pelo racional. Compra-se avaliando muito racionalmente a relação custo/benefício que um produto vai oferecer, independente de simpatia por uma ou outra marca. Acabou aquela compra emocional por um veículo ser mais ou menos bonito ou com base em relações de amizade. As grandes transportadoras avaliam tecnicamente os veículos e optam por aquele que atender especificamente as necessidades de uma aplicação oferecendo melhor desempenho, baixo custo, economia de combustível e, sobretudo, eficiência no pós-venda. Empresário moderno compra caminhão pensando em três itens a partir do momento que ele já sabe qual será a aplicação do produto: valor de compra, custo operacional e valor de revenda. E é assim que tem que ser.

 
LEIA TAMBÉM