Supercomputadores sobre rodas

 

Há 30 anos um time de engenheiros da Mercedes-Benz vem se dedicando a criar meios para tornar a logística mais eficiente com caminhões cada vez mais inteligentes e conectados. O primeiro passo foi dotar os caminhões com a já conhecida eletrônica embarcada. E foi uma evolução e tanto. Os caminhões deixaram de ser mecânicos para se tornarem eletrônicos e, com isso, foi possível, por exemplo, fazer diagnósticos mais assertivos e uma gestão da frota ainda mais eficiente.

A eletrônica evoluiu e, no início do Século 21 a computação começou a chegar aos caminhões. Paralelamente a tudo isso, e não menos importante, foi a chegada, para ficar, da automatização da caixa de mudanças. Hoje em dia, embora ainda há alguns parcos modelos com transmissão manual, é impensável um caminhão pesado sem transmissão automatizada. Até esta parte da história, nossas estradas estão em linha, ao menos em termos de caminhões, com o que há de mais moderno na Europa.

Mas os engenheiros foram, e estão indo, muito além. Os caminhões estradeiros estão entrando na era da conectividade. A Volvo apresentou na última Fenatran, no ano passado, seus caminhões já com este mote: conectados. E a Mercedes-Benz deu um passo adiante, no IAA de 2014 surpreendeu jornalistas especializados de todo mundo com seu caminhão autônomo. “A conectividade não terá limites”, disse à época Wolfgang Bernhard, o chefão da Daimler Trucks & Buses que, não por acaso, foi quem estava conduzindo espetacularmente o caminhão autônomo no último IAA.

Agora, em um grande evento para jornalistas especializados em transporte de todo o mundo, a Mercedes-Benz apresentou em Du?sseldorf, na Alemanha, todo um pacote de tecnologia desenvolvida para os caminhões que, em breve, estarão nas estradas. O maior astro desta apresentação foi o sistema conhecido como “Highway Pilot Connect” capaz de realizar o que os curiosos já viram em alguns vídeos: o platooning. Em livre tradução seria: comboio de caminhões conectados por WiFi.

O sistema é altamente complexo mas a explicação é extremamente simples: caminhões podem ser conectados um atrás do outro, mantendo distância segura de até 25 metros, e só o motorista do primeiro caminhão faz o serviço de dirigir enquanto os demais, que estão atrás, com o sistema ativo, podem relaxar, tirar as mãos do volante e só cuidar com os olhos para ver se realmente está tudo sob controle. O comboio segue na tocada do líder, aumentando ou reduzindo velocidade, faz curvas mas se for preciso mudar de faixa, todos se desconectam para, em seguida, se reconectar em linha na faixa de condução escolhida. Naturalmente que nem de longe é possível dormir ao volante.

Esta nova tecnologia, ainda em testes nas estradas, e também em avaliação sob o ponto de vista das legislações de trânsito, não é apenas uma prerrogativa da Mercedes-Benz. Suas concorrentes também conhecem, e estudam o sistema, como a Volvo (que também vem fazendo testes nas estradas da Europa). Mas a Mercedes-Benz merece os méritos não só por divulgar mas por colocar estes dispositivos para uma discussão mais ampla da sociedade. A fabricante alemã tem outra vantagem: com seus sistema de telemática FleetBoard (nos EUA o sistema tem o nome de Detroit Connect), são 365 mil caminhões do Grupo Daimler conectados em todo mundo. Certamente não estão habilitados para fazer o “platooning” mas deram importante passo para que esta tecnologia seja possível até o final desta década. O caminhão agora não está computadorizado, virou, isso sim, um grande computador ambulante.

O sistema na prática:

Caminhões podem ser conectados um atrás do outro, mantendo distância segura de até 25 metros, e só o motorista do primeiro caminhão faz o serviço de dirigir enquanto os demais, que estão atrás, com o sistema ativo, podem relaxar, tirar as mãos do volante.

E aí entra o assunto mais tratado entre os “entendidos” em informática: a “internet das coisas”. Onde tudo, simplesmente tudo, estará conectado. Muito além das vantagens operacionais de se fazer o “platooning” (seguramente a mais salutar é a economia de combustível), a Mercedes-Benz deu um passo à frente inserindo seus caminhões a este fabuloso novo mundo onde a palavra de ordem é maior eficiência.

Você consegue imaginar o que isso significa em termos práticos? O chefão da Daimler explica de maneira professoral: “Estamos conectando o caminhão com a Internet – vamos torná-lo o principal elemento de dados da rede de logística. O veículo irá conectar todos os envolvidos com o transporte: motoristas, programadores, frotistas, oficinas, fabricantes e seguradoras ou autoridades. Eles recebem as informações em tempo real, tais como condições do cavalo mecânico e do semirreboque, do trânsito e das condições do tempo, disponibilidade de vagas de estacionamento em postos de serviço das estradas, áreas de descanso e muito mais”.

De acordo com o executivo, para a logística de alta performance, dados em tempo reais são essenciais. Do mesmo jeito que é possível entender os “gostos” de cada usuário do Facebook, já é possível monitorar, em tempo real, o comportamento do caminhão, sua condução, os trajetos, onde faz suas paradas, quanto tempo fica parado, quanto tempo está em operação, em quais postos faz os abastecimentos, que óleo está usando e, a alegria do pessoal de pós venda, é facílimo saber qual o exato momento em que é preciso fazer as manutenções preventivas e trocar peças.

“Em breve será possível, por exemplo, reduzir os tempos de espera enquanto ocorrem as operações de carga e descarga do veículo, diminuir a burocracia e evitar os congestionamentos. Com atualizações por download, o tempo de entrada de caminhões que estão indo para a oficina pode ser significativamente reduzido. Desse modo, melhoramos consideravelmente o desempenho do transporte de carga como um todo. Esta é uma enorme oportunidade para enfrentar inteligentemente o volume crescente de tráfego de bens”, afirma.

A Daimler vai investir cerca de 500 milhões de Euros até 2020 para aprimorar seus novos caminhões e deixá-los cada vez mais conectados. “Isso melhorará o desempenho de nossos clientes e os ajudará a operar seus negócios de maneira mais segura e mais ecologicamente correta”, diz Bernhard.

Se na edição passada do IAA, a Mercedes-Benz mostrou seu caminhão autônomo (apenas um ensaio para provar que o futuro não está tão distante quanto imaginamos), na edição deste ano da maior feira internacional de veículos comerciais do mundo, o Grupo Daimler acrescentará novas opções aos seus serviços de telemática e tornará suas plataformas acessíveis a terceiros.

O sinal mais evidente da importância que a internet das coisas tomou dentro da Daimler foi a criação de uma divisão da empresa só para cuidar deste assunto. A nova divisão tem por objetivo estabelecer a estrutura para as transformações digitais dos negócios de caminhões, bem como, processos correspondentes em todas as suas unidades de negócios. Para apresentar ao mundo as vantagens em se contar com sistemas conectados, a Daimler demonstrou para os jornalistas, em uma autoestrada alemã, nas imediações de Du?sseldorf, o “platooning” formado por três Actros conectados por WiFi. A Daimler batizou de Highway Pilot Connect seu “platooning”. De acordo com os técnicos da fabricante alemã, com a tecnologia disponível atualmente é possível conectar um comboio de até 10 caminhões.

O “platooning”, contudo, é apenas a cereja do bolo da Daimler que visa, na prática, inserir seus caminhões neste novo universo batizado “internet das coisas”. Todos sabem que os caminhões formam a coluna vertebral da economia mundial. Mesmo em países civilizados, como a Alemanha, com forte participação de modais como o ferroviário no mix logístico, o protagonismo dos caminhões é vital. Bernhard diz que as necessidades de transporte vão triplicar até 2050 “mas a infraestrutura não vai acompanhar esta alta demanda, por isso a logística terá que ser mais eficiente”.

Com esta visão muito clara de futuro, os executivos da Daimler estão convencidos que a saída será mesmo, praticamente, construir supercomputadores com rodas, suspensão pneumática, transmissão automatizada, motores potentes e que tenham inteligência suficiente para contornar o nó logístico que se avizinha pelas próximas décadas. Se os alemães, com invejável infraestrutura, estão preocupados com isso, imagina como será dramática a situação aqui no Brasil caso os caminhões não se tornem, efetiva e rapidamente, mais eficientes.
Portanto, o que para nós, agora, é espetacular, ao ver motorista tirar a mão do volante e relaxar quando seu caminhão está conectado com outro à sua frente, e muito mais importante até que a possibilidade, cada vez mais real, do caminhão ser autônomo, é o engajamento da Daimler em ser conhecida como uma fabricante de sofisticados computadores motorizados capazes de transportar carga de maneira mais eficiente e inteligente.

 
LEIA TAMBÉM