Velozes e Eficientes

 

O transporte de todos os equipamentos do Grande Prêmio deFórmula 1 feito pela Movicarga pode ser comparada a uma operação de guerra, onde não há espaço para falhas e a “tropa”, no caso a equipe de motoristas e apoio, trabalha focada para cumprir à risca todos os prazos e procedimentos de carga e descarga.


Os boxes das equipes são lacrados para aumentar a segurança dos equipamentos

Só há uma coisa que preocupa mais Bernie Ecclestone, o icônico chefão da Fórmula 1, antes dos carros acelerarem em cada prova pelo mundo: a logística para tudo acontecer e dar certo. Pelo mundo, quem toma conta deste negócio milionário é a multinacional alemã DHL mas, no Brasil, há uma exceção interessante e que é a prova viva que brasileiro é sagaz e astuto para os negócios.

Regina Yazbek, hoje diretora presidente da Movicarga, responsável pela logística da Fórmula 1 no Brasil, foi a grande artífice por esta “exceção”. No início dos anos 90 a empresária, então com menos de 30 anos, resolveu procurar a Formula One Management (FOM) e oferecer os serviços de sua empresa para o grande circo da Fórmula 1. O que parecia um delírio, virou realidade em 1992 quando sua empresa ganhou o direito de fazer as movimentações do “circo” apenas dentro da Interlagos.

Amarração das cargas no Aeroporto de Viracopos ED

Dez anos depois, em 2002, a Célere, braço logístico da Movicarga, assumiu toda a logística da Fórmula 1 no Brasil. Um processo que começa no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, SP, e termina com a entrega de cada item no autódromo de Interlagos. A maioria dos equipamentos chega por via aérea em aviões cargueiros. São 120 baús e contêineres, contendo mais de 10 mil peças diferentes e 32 toneladas de equipamentos por equipe para as corridas fora da Europa. Para ilustrar, apenas para dar ideia da dimensão do negócio, só o checklist da equipe Williams tem mais de 80 páginas e consta, além dos três carros, seis motores, 44 computadores, 100 rádios e mais uma infinidade de peças, ferramentas, uniformes, camisetas, até um sem número de itens como bebidas, brindes e guardanapos.

Aos 27 anos, ninguém avisou Regina que fazer toda a logística da Fórmula 1 no Brasil seria impossível para uma empresa nacional e, ainda por cima, pequena. E como não sabia que era impossível, ela foi lá e fez. Hoje a empresária comanda uma empresa com quase dois mil colaboradores e se cerca de profissionais competentes para não dar margem alguma para erros. “O Brasil é o único país do mundo em que a Formula One Management (FOM), empresa inglesa que administra as provas de Fórmula 1, contrata um operador local para coordenar e executar a operação, devido às peculiaridades logísticas de uma cidade com as dimensões de São Paulo”, destaca Regina.

Os amantes da Fórmula 1 talvez nem imaginem, mas duas semanas antes da tão aguardada luz verde que dá a largada dos bólidos, uma outra corrida, de bastidores, muito mais frenética, não menos emocionante e extremamen- te tensa é deflagrada para se montar o grande circo da mais charmosa e famosa competição do automobilismo mundial.

É uma logística extraordinária que envolve, assim como na competição, estratégia, veículos com muitos cavalos de potência, pilotos experientes, muita comunicação por rádio e uma gestão altamente profissional. Além disso, tão igual à Fórmula 1, a corrida é frenética e contra o tempo. Afinal de contas, quando uma etapa termina em um país, outra etapa, em outro país, já começa a ser preparada.

Para a realização do Grande Prêmio Brasil deste ano, a Revista Transpodata acompanhou de perto, “in loco”, todo processo de uma das mais complexas logísticas rodoviárias do planeta. Na madrugada do dia 4 de novembro, às 5h30, nossa equipe estava a postos junto com caminhoneiros e operadores logísticos da Movicarga aguardando o descarregamento de um cargueiro 747 no Aeroporto de Viracopos. “Em todo o mundo, somos o único operador local a realizar este serviço. Temos que seguir os mesmos padrões de atendimento feitos em outros países. Não há espaço para falhas, é ‘erro zero’”, explica Guilherme Pereira Osório, 33 anos, diretor geral da Movicarga.

Neste ano de 2015, a organização da Fórmula 1 exigiu que o transporte de toda a infraestrutura do evento fosse feito em cinco dias. Assim, 16 caminhões fizeram duas viagens diárias entre o Aeroporto de Viracopos e o Autódromo de Interlagos.

Para levar a carga, foram “escalados” caminhões pesados da Volvo (FH 520 e FM 370), Scania (R 440) e Iveco (Stralis 440) da transportadora Rodomeu (terceirizada pela Movicarga) que tracionaram implementos rodoviários do tipo “carrega tudo”.

Os “boxes” da Fórmula 1 chegam a Viracopos trazidas por um imenso avião da empresa Cargolux, um Boeing 747 repleto de caixas identificadas pelos nomes da equipes (Mercedes AMG, Williams, Red Bull Racing, etc.). Os próprios motoristas da Rodomeu não sabem qual é o conteúdo das caixas, que podem levar de equipamentos de TV e de mecânica, a peças e partes dos carros de corrida.


Descarga é feita diretamente no Pit Lane de Interlagos

E é entre as caixas que surge um dos grandes destaques, chamando a atenção por onde passa: o Safety Car e o carro médico, ambos da Mercedes-Benz. O veículo de segurança é o AMG GT S, esportivo equipado com um motor V8 biturbo de 510 cavalos e 65 kgfm de torque. O carro médico é um C63 AMG S Estate, com a mesma motorização do Safety Car, mas com torque ampliado para 70 kgfm.

Depois que os 16 caminhões foram cuidadosamente carregados no aeroporto, começa a viagem até o autódromo de Interlagos. São pouco mais de 100 quilômetros, feitos em comboio e com todo o cuidado possível para não avariar as preciosas cargas.

A Movicarga faz a operação logística da Fórmula 1 no Brasil há 24 anos, desde o início da década de 90. “Em 2002, iniciamos a intralogística em Interlagos, transportando, carregando e descarregando tudo dentro do autódromo por meio das nossas empilhadeiras”, fala Guilherme Pereira Osório, diretor geral da companhia. Por conta desse longo relacionamento com o evento, a Movicarga é a única operadora local da Fórmula 1, que firmou contrato com a DHL para cuidar da logística nos outros 18 autódromos espalhados pelo mundo.


Descarga em Interlagos

“Em resumo, não podemos errar. Temos que ter ‘zero avaria’, cumprir rigorosamente os horários, descarregar de forma correta e no local pré-determinado e seguir todos os lay outs da organização”, comenta Osório.

Quando o Grande Prêmio termina e o piloto campeão levanta a taça no pódio, a Movicarga já está pronta para levar tudo de volta ao Aeroporto de Viracopos. “Na hora de ir embora, a operação é mais ‘pegada’. Tudo o que trazemos em cinco dias com 16 caminhões tem que ser devolvido em pouco mais de 24 horas. Por isso, nessa fase, trabalhamos com 80 caminhões – os veículos fazem apenas uma viagem, pois não temos tempo para que eles retornem do aeroporto”, conta Osório.

Ao mesmo tempo em que exige rigor e precisão, a logística de um evento como a Fórmula 1 também requer muita flexibilidade (para contornar problemas como atrasos de voos) e dedicação. Por isso, a corrida realizada no Brasil sempre no mês de novembro é planejada em março, nove meses antes.


Guilherme Pereira Osório, Diretor geral da companhia.

“Começamos a traçar as metas em março, e em agosto passamos a tratar diretamente com o promotor do evento. Como é um contrato anual, sem garantias de longo prazo, sempre temos que fazer tudo muito bem feito para fechar o próximo. Mas ao longo dos últimos anos conquistamos a confiança do nosso cliente, e hoje até trabalhamos de forma mais autônoma”, finaliza Guilherme Osório. Para colocar em prática toda essa operação logística são utilizados 300 profissionais (operadores, engenheiros, coordenadores e técnicos), 80 caminhões, 50 empilhadeiras e paleteiras, além de oito carros de apoio.

Orgulho

Conversando com os motoristas da Rodomeu, é possível sentir o orgulho de cada um dos integrantes da equipe. “Fico feliz em participar desta operação porque é nos melhores eventos que estão os melhores profissionais”, diz Carlos Nunes, 33 anos, e que trabalha no transporte da Fórmula 1 desde o ano passado.

“A responsabilidade é maior, temos que ter bastante atenção a muitos detalhes. Mas gosto muito de participar, e já estou nessa operação há seis anos. Todo mundo na empresa gosta de participar um pouco do evento. Empolga!”, destaca Eduardo Márcio Lopes, 44 anos de idade.

Descarga em Interlagos

Transportar a infraestrutura da Fórmula 1 realmente empolga tanto que um dos motoristas deste ano fez a sua estreia na operação e não escondia de ninguém a satisfação de fazer parte da edição 2015 do Grande Prêmio do Brasil.

“Estou realizando o meu sonho. Quando entrei na Rodomeu, há 20 anos, ela ainda não fazia esse serviço, e me especializei no transporte de produtos perigosos. Mas a partir do momento que passamos a trabalhar com a Fórmula 1, sempre tentei participar, mas minhas escalas não batiam com o evento. Mas neste ano deu tudo certo, e aqui estou”, comemora Luiz Carlos Prado, de 57 anos.

 
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