Top View - José Hélio Fernandes - Um ano animador para o transporte

 

Depois de dois anos de recessão, parece que enfim, o setor de transportes no Brasil começa a vislumbrar uma recuperação. O presidente da NTC&Logística, José Hélio Fernandes, acredita que se o Produto Interno Bruto (PIB) crescer até 3%, como estima a equipe econômica, a movimentação de cargas pelo país pode aumentar em até 10%. Já o faturamento das empresas, é um assunto mais complicado, segundo ele. Ele acredita que precisa de um trabalho forte no setor para recuperar as tarifas e, consequentemente, o caixa das empresas.

Nesta entrevista à Transpodata, Fernandes fala também do problema da segurança , principalmente no Rio de Janeiro. Ele disse que existe uma taxa extra para cargas com destino ou origem para o estado. Tudo isso para recompor os gastos com segurança que aumentaram muito nos últimos anos com a escalada da violência no Brasil.

A expectativa de expansão do PIB (Produto Interno Bruto) para este ano é de 2,5% a 3%. Em 2017, a economia cresceu 1%. É possível ver uma pequena recuperação da economia. Qual é a expectativa para o setor de transporte?

Olha, nós esperamos que seja realmente o melhor ano desses últimos quatro. Como você disse, há uma expectativa de um crescimento entre 2.5%, 3% do PIB, embora esse rescimento seja em cima de uma base muito fraca, pequena. Mas, é muito melhor nós falarmos de 2, 3 positivos do que 3.5 negativos. É algo que começa a animar. E as informações que a gente recebe das empresas, todos estão animados e achamos sim que haverá uma recuperação da economia e, evidentemente, vai haver um impacto positivo no nosso setor. Eu acho que isso é animador.

O que seria animador? Tem como dimensionar isso? Esse crescimento no transporte será perto do PIB ou como o ano passado?

Não. A gente acha que cresce mais. Esperamos um crescimento maior. Estamos otimistas. Acho que se o PIB crescer 3%, o setor deve crescer entre 6% e 10%. É isso que estamos esperando. Temos um ano que evidentemente teremos algumas complicações. Um ano político. Nós sabemos que será uma campanha extremamente acirrada. Mas, temos visto também uma economia meio que descolada da política. O empresário entendeu que tem que agir, tem que investir, e nós sentimos isso. Então, esperamos que o ano político não traga um impacto negativo para a economia e para o nosso setor.

Mas como está vendo o momento no Brasil? O Sr falou que a economia descolou um pouco da política. Porém, ano passado o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse que as reformas precisavam ser feitas para a recuperação da economia se sustentar. Essas reformas não vieram. Como você vê o momento do Brasil? Tivemos o downgrade de duas agências de classificação de risco. Mesmo assim acredita que o PIB irá crescer os 3%, e consequentemente o setor de transporte pode chegar a esse percentual?

Entendemos que apesar disso, a economia realmente vai retomar. Evidentemente que essas reformas são extremamente importantes. Mas até imaginando que o governo (Michel) Temer, até por ser um governo em metade de mandato, que veio depois de um impeachment, está fazendo algo muito importante. Uma delas foi a Lei do Teto de Gastos, que foi a primeira que aprovaram e não tem um resultado imediato, mas é importante. Uma outra coisa importante é a reforma trabalhista, que é extremamente importante. Eu acho que foi um passo decisivo na retomada de investimento e do emprego. E uma outra coisa: a da Previdência é sempre uma reforma problemática. A gente sabe disso. Lá no Congresso ouvimos isso. Até em função do momento. O político é sensível a isso. Estamos em ano eleitoral, e essa é uma reforma que mexe muito. Então, realmente ficou para o próximo governo. Mas eu acho que é inevitável. Adiou um pouco, o que prejudica, mas virá. Agora, têm duas reformas importantes. Uma delas muito importante e que não tem relação com a economia. É a reforma política. Essa terá que ser enfrentada também para que "dê uma arrumada". Essa história de 35 partidos ou de mais 50 que teriam condição de serem aprovados. Ora, isso não funciona. Por isso que há essa confusão toda. Essa chamada compra de apoio, já que nenhum governo consegue se eleger e eleger a base dele. Aí depois, para compor no Congresso, dá no que dá. Essa composição fisiológica prejudica muito. Reforma Tributária é outra extremamente complicada, porque todo mundo tem medo de perder receita. Toda vez que vai mexer com isso os Estados reagem. Então é outra reforma, eu diria, complicada, mas que precisa ser enfrentada também. Principalmente, não é nem a redução, mas a simplificação disso. Porque hoje as empresas mantêm um verdadeiro pelotão de gente para cuidar da parte tributária. Quantidade de informações que precisam ser dadas, cada Estado com uma legislação. Quer dizer, é muito complicado, custa muito para as empresas cuidarem da parte fiscal. É preciso simplificar isso.

No setor de transporte, qual a reforma que é mais prioritária?

Eu acho que é um conjunto. A Tributária é prioritária para a economia como um todo. E para o nosso setor também. Você veja só: as empresas que têm filiais têm uma dificuldade enorme, lidando com legislação diferente em cada Estado. Principalmente na área do ICMS, então era preciso simplificar tudo isso para que as empresas tivessem mais facilidade e menos custo para cuidar dessa parte tributária. Mas a Reforma Tributária é necessária para a economia como um todo. Quando o Meirelles ou o Congresso falam: "vamos fazer de forma fatiada", o que é isso? É que eles sabem que se pegar a Reforma Tributária como um todo, igual a Previdência, que precisa fazer como um todo, não tem como. Os Estados têm um peso muito grande, e seguram as bancadas para não votarem. Então, é uma reforma extremamente complicada. E o ministro Meirelles falava nisso, do tipo "vamos pegar as partes importantes". Eu acho que é um passo. Tem que fazer. Quando a gente vê que não vai sair no todo, então que se faça da forma "fatiada", mas que se faça um pouco por ano. Mas o que vemos não são coisas muito boas. No Congresso tem uma proposta de, por exemplo, mexer no PIS/COFINS, que para o nosso setor de serviços é uma coisa absurda, porque vai nos onerar ainda mais.

Onera em quanto?

Cada setor faz o seu cálculo. Há segmentos que, nas reuniões que fazemos dentro no Congresso, eles dizem na mesa que dobra o que pagam hoje. É tipo o seguinte: Tirar de outros setores e colocar o setor de serviços para pagar, e isso é uma coisa absurda que já aconteceu conosco no passado. Quanto era o PIS do setor? 0,65%. E eu estou falando no nosso de transporte. De 0,65% do transporte, foi para 1,65%. Eu não posso te precisar a data, mas já tem entre 8 a 10 anos. Bom, quanto era o COFINS para o nosso setor? Era 3% e foi para 7,6%. Quer dizer, você sai de 3 para 7.6, e agora querem mexer. Nós temos um posicionamento muito firme. Essas coisas que nos deixam preocupado, porque quando falam em fatiar essa Reforma Tributária, pode fatiar tirando de um setor e colocando outro para pagar. Isso já aconteceu no passado e nós não queremos que aconteça agora. Então, essas reformas precisam ser feitas, mas com muito critério. Eu até digo nas nossas reuniões, dentro do nosso setor: A Reforma Tributária, eu pessoalmente tenho medo. Porque ela nunca virá para diminuir. O governo sempre vem preparado para aumentar. Quando você vê, você paga mais. Por uma razão muito simples: toda vez que eles fazem essas simulações, trabalham com uma faixa de segurança muito grande. A Fazenda, a Receita Federal, tem um quadro de funcionários extremamente competente, muito experiente. Eles trabalham com faixa de segurança. "Olha, para mexer aqui, tem que mexer de 1 para 1,5. Vamos fazer o seguinte, vamos mexer de 2 para 2,5". Sempre trabalhando com uma faixa de segurança. Isso sempre para aumentar a receita.

Além dessas reformas, que devem impactar toda a economia, a questão da infraestrutura também é um problema que precisa ser solucionado rapidamente...

Sim. O problema da infraestrutura é uma luta que a gente ainda tem. Eu vi novamente interrupção da BR 163 (Cuiabá/ Santarém) e isso não era para acontecer mais. Aquela BR hoje tem uma importância muito grande porque liga toda soja do médio norte do Mato Grosso à Meritituba, no Pará. E todo o investimento privado para construir portos naquela região foi feito. A parte privada foi feita, aí o governo não consegue resolver o problema da rodovia. E eu me lembro que em maio de 2013 eu participei de um grupo, chamado de "Caravana da BR 163". Nós saímos de Lucas do Rio Verde (MT). Éramos 40 pessoas em dez caminhonetes cabine dupla, com quatro pessoas por veículo, e percorremos toda ela até Miritituba. Naquela época, fiquei surpreso positivamente. Eu esperava encontrar uma coisa muito ruim e me surpreendi. Isso porque tinha trecho muito extenso asfaltado, já na BR 163. Mas, existiam trechos sem asfaltar que já diziam, naquela época, que era em torno de 200 quilômetros. Chegamos em Miritituba, lá onde diziam que seria os portos, era um pasto. Não tinha absolutamente nada, nem um tijolo. Bom, quando foi fevereiro de 2017 nós vimos aquela cena de seis mil caminhões enfileirados, aquela coisa toda. Quer dizer, quatro anos depois que eu estive lá. Resultado: onde não havia nada os portos estavam prontos. Todos operando. E a estrada estava com os mesmos 200 km, quatro anos depois, sem asfalto. Isso é uma coisa absurda. O descompasso que há nisso é muito grande. Então a infraestrutura é muito deficitária ainda.

Qual é o custo médio hoje do transporte, por exemplo, para trazer a soja lá do Mato Grosso para Santos (SP)? E caso a BR 163 estivesse concluída e ligasse, de fato, ao Porto de Miritituba, quanto essa despesa se reduziria?

Olha, eu não posso te precisar isso, mas impacta bastante. Porque primeiro você encurta a distância. Em vez de você sair lá de Sinop (MT), por exemplo, e ir para Santos, Sinop está na divisa do Pará. Então a distância é muito grande, e você vai economizar. Hoje quem que transporta soja ou milho? São veículos pesados. Os bitrens, veículos muitos pesados. E qualquer quilômetro a mais rodado por um veículo desses impacta significativamente. E aí não é questão de um quilômetro e sim de quilômetros. Aumenta bastante. Você aumenta risco, porque o quanto mais se roda, mais risco se corre. E aquela é uma região extremamente produtora. Então, tudo o que você puder encurtar a distância, diminuir o custo, é importante para o produtor.

Mas não faltaria um pouco mais de política privada, ou seja, o setor privado entrar mais nessa área de infraestrutura?

É o que a gente espera, mas quando o governo lança esses projetos, quando o empresário vai analisar, vê que fica inviável. E há algumas coisas interessantes, porque eles não conseguem terminar os 200km, na BR 163, mas já falam, via privatização, em duplicar. Quer dizer, tem 200km em quatro anos que não foram feitos, mas falam em duplicar. Mas aí sim via iniciativa privada, já que pelo governo mesmo não sai. Há muita coisa no Brasil não é só questão dos investimentos. A licença ambiental, por exemplo, é um entrave. Para você fazer uma rodovia como a 163 que ficou anos e anos em discusão a possibilidade de asfalta-la uns 15 ou 20 anos, "Não pode ser asfaltada, porque ela vem pela região amazônica"... não deixavam, até que venceram essa etapa. Então tem tudo isso. Os problemas ambientais, uma série de coisas que realmente atrasam e dificultam muito a melhoria da infraestrutura.

Há como dimensionar o quanto que é o Custo Brasil e o quanto o custo logístico entra nessa conta?

Isso depende da região. A gente até costuma dizer - até o Geraldo Viana falava isso -, o pessoal diz "O frete é muito caro", e as vezes é caro para quem paga e é pouco para quem recebe. Por que? Em função das condições. Lá na época do Geraldo, na NTC, foi quando se ouviu sobre o "apagão logístico". Eu me lembro direitinho quando foi dito isso em uma reunião. E era o que a gente dizia: "Olha se eu levantar daqui agora e ir naquela tomada e apagar a luz, vocês vão ver imediatamente que a luz apagou". Naquela época, a discussão do "apagão logístico" foi em razão da crise de energia que houve. Então todo mundo se preparou para economizar. Fizeram até um plano para economizar, que até funcionou muito bem, feito pelo atual presidente da Petrobras, Pedro Parente. Mas o apagão logístico a gente dizia o seguinte: "Tudo bem, ninguém está vendo porque eu não apaguei a luz, ninguém sentiu. Agora o pessoal estava vendo carga sem transportar? Não. Estava sendo transportada. Estava chegando às vezes com o produtor pagando mais caro? Sim. Remunerava bem o transportador? Não. Tudo está sendo transportado. O que ninguém estava muito preocupado era em que condição, a que custo, qual o impacto. Então veio esse termo do "apagão logístico" porque a logística estava passando por um problema. E continua.

Outro problema é a segurança. Isso impacta muito no custo logístico?

Sim. O roubo de carga já tomou uma outra proporção. Isso é um martírio para nós. Um absurdo o que vem acontecendo. Isso começa a te impactar de todo jeito. As empresas virando um aparato de segurança.

E a questão da segurança pode ser o impulsionador para um novo "apagão logístico"?

Olha o que está acontecendo com o Rio de Janeiro. Lá teve empresa que parou, que estava com problema. No Rio de Janeiro tomou uma proporção que não era nem roubo mais, era saque. Todo mundo via a luz do dia, em telejornais os bandidos saqueando caminhão no meio da rua. Evidentemente, começou a encarecer o custo. As seguradoras não queriam fazer seguro ou subindo as taxas, incluindo a franquia. "Eu não faço seguro da carga toda. Eu faço o seguinte: pago metade do valor a outra metade a transportadora" - tipo franquia mesmo. Então você vai criando toda uma dificuldade operacional para as empresas. Óbvio que isso tem impacto. A gente não tinha roubo em determinadas regiões do país e hoje nós temos em praticamente no Brasil inteiro.

 
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