Caminhões quase sobrenaturais

 

Há mais de 30 anos a Iveco participa do tradicional Rali Dakar. Fez a estreia com caminhões em 1982 e, com pilotos independentes e, em 2011, quando o rali mudou da África para América do Sul, passou a participar de maneira mais profissional, fazendo parte de uma equipe.

A vitória mais expressiva e surpreendente veio em 2012, quando a equipe comandada pelo holandês Gerard De Rooy ficou com a primeira e a segunda colocação. Foi a primeira vez que caminhões da marca italiana se sagraram campeões no mais longo e difícil rali do planeta.

Animada com os resultados e a habilidade do piloto holandês, a Iveco investiu mais na competição off road e, em 2014, marca e piloto ficaram em segundo lugar (só perdendo o posto de campeão por conta do “fair play” de Rooy que desviou-se do trajeto para ajudar um piloto com problemas). Mas em 2016 veio mesmo a consagração da dobradinha holandesa-italiana com Rooy sagrando-se bi campeão do Rali Dakar.

Consagrado, Rooy agora tem três equipes na competição, todas com caminhões Iveco Powerstar, modelo de cabina recuada produzido na planta da marca na Austrália, e uma equipe é formada exclusivamente por pilotos argentinos: Federico Villagra, Ricardo Torlaschi e Adrián Yacopini.

Diz Marco Borba, vice presidente da Iveco para América Latina: “Esse tipo de ação proporciona muitos benefícios para a marca. Especificamente falando sobre o Rally Dakar, colocar nossos caminhões em terrenos difíceis, e em condições extremas de dirigibilidade é um ótimo campo de testes para futuros desenvolvimentos da marca.O caminhoneiro que dirige um veículo Iveco sabe que a tecnologia da montadora passou por avaliações severas antes do produto ser lançado no mercado”.

O modelo Powerstar não é produzido no Brasil mas é montado Trakker um caminhão mais robusto, 6x4, que vai bem tanto no on como no off road e é produzido nas plantas da Iveco no Brasil e na Argentina. Neste ano a equipe Iveco não levou a premiação máxima do Rali Dakar. O vencedor foi o russo Eduard Nikolaev, piloto da lendária equipe russa KAMAZ-Master. A equipe ganhou o Dakar por impressionantes 14 vezes. A segunda marca que mais ganhou o rali foi a tcheca Tatra (subiu sete vezes no pódio). Por isso mesmo, brigar com equipes assim, com essas marcas que cujos veículos são praticamente pensados para ganhar o rali, já é um feito e tanto.

Por duas vezes a Iveco quebrou a hegemonia tcheco-russa. E desde então, se não ganha, marca presença no pódio. Neste ano a equipe de Rooy ficou com a quarta posição na classificação geral com o piloto do Cazaquistão Artur Ardavichus. Diferente de outras competições, até mesmo concluir o Rali Dakar já é um feito e tanto. Dos 49 caminhões que participaram da prova neste ano, apenas 19 concluíram a prova na integridade.

Não é para gente normal

Com 9,3 mil km, o Rali Dakar é quase tão longo quanto uma temporada completa do Campeonato Mundial de Rally. O percurso deste ano partiu de Lima, no Peru, atravessou a Bolívia e terminou em Córdoba, na Argentina. Depois da corrida, andamos no caminhão no ritmo que é tocado no rali e, é preciso deixar claro, uma pessoa normal não suportaria nem sequer 50 quilômetros nesta tocada alucinada.

Tudo bem que o caminhão sofre horrores com buracos, pedras, areia, lama, clima e muita poeira, mas quem está dentro passa por um verdadeiro inferno sacolejante. Esqueça conforto, ar-condicionado, bancos com suspensão, nada disso vai aliviar sua sensação de estar dentro de um gigante liquidifi cador atômico. Como o navegador faz para orientar o caminho ao piloto em condições assim, tão desgraçadamente adversas, é um mistério insondável. Na cabina vai piloto (fomos com o Villagra), navegador e o controlador operacional (este fi ca no meio) e todos sacolejam como quando o milho vira pipoca.

O caminhão tem motor de 920 cv e acelera forte, tem uma tração impressionante, torque violento, e chega fácil a mais de 160 km/h. em nossa breve experiência, batemos perto de 100 km/h e a sensação dentro da cabina é de caos e desordem.

O caminhão sai de lado e salta incontáveis vezes por sobre buracos e pedras. E você lá dentro só consegue mesmo se esforçar para se manter sóbrio porque está fi rmemente atado ao banco. Francamente, não é uma prova para pessoas normais e, a bem da verdade, os caminhões precisam mesmo ser máquinas quase sobrenaturais para aguentar este tremendo tranco.

 
LEIA TAMBÉM