O retorno do otimismo

 

Depois de três anos de quedas nas vendas, mercado voltou a reagir a partir do quarto trimestre do ano passado. O início deste ano já começou com forte demanda por novos veículos e há até dois meses de espera para se emplacar alguns modelos de caminhões pesados mais premium.

O mercado de veículos comerciais (caminhões e ônibus) começou a reagir no final do ano passado e tudo indica, conforme vendas verificadas até agora (fevereiro) que, neste ano, haverá uma retomada média da ordem de 30% nos negócios. Os caminhões, em geral, são impulsionados primeiro pelo herói de sempre, o agronegócio, mas, também agora, por setores que começam a mostrar que a crise se encerrou: combustíveis, químicos, mineração e industrial.

Para os ônibus a boa nova, que ainda falta se sacramentar, é a gritante urgência de se fazer renovação de frota em grandes capitais como São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte e a vontade política de se criar BRTs mais eficientes. As negociações estão avançadas e podem vingar especialmente em Manaus, AM e Florianópolis, SC. A Volvo, por exemplo, começou o ano fazendo uma grande venda de 25 ônibus biarticulado para a capital paranaense, cidade que ficou sem renovar a frota de ônibus por quase uma década.

O mês de janeiro começou acelerado para o mercado de caminhões, com emplacamento de 4.594 volume 56,26% superior aos 2.940 veículos emplacados no mesmo janeiro do ano passado.

ANTONIO CAMMAROSANO - MAN

De acordo com Ari Carvalho, diretor de vendas de caminhões da Mercedes-Benz, esse resultado positivo é, em parte, reflexo dos bons negócios realizados durante a Fenatran que aconteceu em outubro do ano passado, e também fruto de aceleração de diversos setores da economia como agronegócio, logística, combustível, químico, mineração e madeira.

Para o segmento de ônibus os negócios firmados também apontam para um ano melhor que o ano passado. Em janeiro foram emplacados 1.115 ôinbus contra 707 em janeiro de 2016, com aumento de 57,71%.

Com as revendas de todas as marcas começando a faturar caminhões e ônibus, montadoras como a Volvo já voltaram a contratar, ainda que em caráter temporário. “Contratamos 100 novos colaboradores no final do ano passado e, neste ano, já admitimos mais 150, por ora, em caráter temporário”, afirma Wilson Lirmann, presidente do Grupo Volvo América Latina.

No auge da crise, em meados de 2015, a Volvo parou de operar com o segundo turno de produção e, ao longo daquele ano e durante 2016 se viu obrigada a reduzir em 20% seu quadro de funcionários por conta da forte retração do mercado nacional (queda de 70% nas vendas). Por isso, terminar 2017 e começar 2018 com contratações é, sem dúvida, sinal de que as coisas começam a voltar ao eixo. Também para a Volvo a Fenatran foi um divisor positivo de águas. E a montadora sueca se surpreendeu com o volume de pedidos firmados durante o evento. “Foi a Fenatran mais positiva da história da marca”, jubilase Bernardo Fedalto, diretor de vendas da Volvo do Brasil. O executivo diz que o índice de conversão (negócios realmente efetivados) neste evento foi, em média, da ordem de 50% quando a média histórica do evento, mesmo nos bons tempos de economia mais vibrante, era de 25%.

Quem tem boas razões para botar fé neste ano é a Mercedes-Benz que negociou mais de 6.200 veículos comerciais entre dezembro e janeiro, unidades que serão entregues aos clientes ao longo deste ano. “Começamos muito bem 2018, ano que já está sinalizando a retomada do crescimento da economia, o que traz reflexos positivos ao mercado de caminhões, ônibus e comerciais leves”, ressalta Roberto Leoncini, vice-presidente de Vendas, Marketing e Peças & Serviços Caminhões e Ônibus da Mercedes-Benz do Brasil.
De acordo com levantamento da Mercedes-Benz, entre dezembro passado e janeiro a empresa realizou negócios envolvendo 1.073 caminhões. “As empresas de transporte estão renovando suas frotas para atender ao crescimento da demanda com eficiência e rentabilidade”, diz Leoncini. “Para 2018, projetamos um crescimento de vendas de caminhões em torno de 30%”.

Antonio Cammarosano, diretor de Vendas de Caminhões – Mercado Nacional da MAN Latin America, e Wilson Lirmann, presidente do Grupo Volvo América Latina, corroboram com a mesma opinião e esperam expansão de 30% nos vendas totais de caminhões. “Pode ser até mais”, diz, otimista, Lirmann, “pois a queda foi tão grande, fazendo com que a base fique tão pequena, que qualquer melhoria no mercado vai gerar um índice bastante expressivo”.

Na casa das centenas

Cammarosano, da MAN Latin America, também diz que a marca realizou grandes negócios na feira (o volume, por questões estratégicas, e para não dar dados à concorrência, ninguém revela). Contudo, negócios já feitos, assinados e faturados podem ser divulgados. O diretor da MAN conta que o setor de bebidas será um dos grandes responsáveis pela expansão do mercado neste ano. “Vendemos para Ambev, Itaipava e Cervejaria Imperial grandes volumes de caminhões para distribuição. Só para a Imperial, por exemplo, faturamos 140 unidades do Novo Delivery”.

O mais expressivo negócio, contudo, foi feito pela Mercedes-Benz com a Raízen, principal fabricante de etanol de cana-de-açúcar do Brasil. Em julho do ano passado foram vendidas 524 unidades e agora, em janeiro, mais 533 caminhões extrapesados Mercedes-Benz foram faturados: 300 Actros para transporte de combustível na Divisão Shell e 233 Axor para operações fora de estrada.

Outra grande venda da marca da estrela deste mês foi realizada com a D’Granel Transportes: 100 extrapesados, sendo 86 Axor e 14 Actros para o transporte de granéis sólidos para siderurgia, cimenteiras, mineradoras e celulose, com operações no Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste.

WILSON LIRMANN - VOLVO

Também em janeiro, a Mercedes-Benz negociou 80 caminhões Axor para a Expresso Nepomuceno, que serão destinados ao transporte de cana-de-açúcar e madeira em várias regiões do Brasil. Somam-se ainda 110 extrapesados para diferentes aplicações: 52 Actros para transporte de combustível (Transjordano), 35 Actros para transporte logístico (Log Brasil) e 23 Axor para operações de cana-de-açúcar (Breda).

Em dezembro de 2017, foram 150 Actros para a Transoeste realizar o transporte de grãos no Centro- Oeste (negociações realizadas com o envolvimento da unidade de seminovos SelecTrucks) e 100 Actros para renovação de frota da Transportadora Risa, maior produtora de soja na nova fronteira do Nordeste.

O transportador, depois de três anos de retração, também se mostra mais otimista. Elias Caixete, proprietário da Transgrãos, renovou e ampliou sua frota no final do ano passado e início deste ano. “O mercado agro não sofreu tanto com a crise e, para sermos competitivos, temos que operar com caminhões mais novos pois eles rodam mais e demandam quase zero de manutenção”.

Para o frotista Gustavo Magnabosco, cuja transportadora que leva seu nome presta serviços para a BRF, “o mercado começa a dar sinais de retomada e podemos observar isso com a maior demanda por alimentos”, diz o empresário que comprou no ano passado 50 FH da Volvo, “metade para renovação e metade para ampliação de nossa frota”. Magnabosco está otimista e antecipa que já se programou para comprar mais caminhões novos neste ano. “Até o meio do ano vamos adquirir mais unidades, há demanda de nossos clientes e, por isso, precisamos de mais caminhões”.

A Transportadora Fadel, especialista na logística de bebidas e alimentos, também foi às compras no segundo semestre do ano passado (compraram 80 caminhões, sendo 35 extrapesados) mas, de acordo com Ramon Peres, diretor da empresa, “nossas compras não estão atreladas a situações de curto prazo, fazemos nossa renovação e ampliação da frota de acordo com análise de mercado e seguindo uma estratégia de longo prazo”.

Peres diz que a crise prolongada não alterou os planos de renovação da empresa até porque seu negócio foi pouco afetado. “Nosso segmento de transporte de bebidas e alimentos, para nossa sorte, foi um dos últimos segmentos a ser atingido pelas crises econômicas e um dos primeiros a reagir positivamente. Tivemos um quarto trimestre de 2017 muito bom e começamos este ano bem, temos boas expectativas para crescimento dos negócios nete ano”.

Camarosano, da MAN, diz que a volta do crescimento, como de costume no Brasil, normalmente acontece subitamente. “O mercado brasileiro sempre vai surpreender. Desde a Fenatran os pedidos voltaram com força. Não é tão simples reacelerar a produção na fábrica. Por exemplo, novos pedidos do nosso TGX (extrapesado Premium da marca), só conseguiremos entrega-los em abril. E se for o modelo com tração 6x4, aí só em junho”.

Todas as montadoras de caminhões vão enfrentar o mesmo problema. Para isso que a Volvo já tratou de botar o segundo turno de produção na ativa, contratando mais de uma centena de novos colaboradores. “O mercado vai crescer, já está se expandindo aceleradamente, e temos que dar respostas rápidas a essas demandas”, afirma Wilson Lirmann, presidente da empresa.

Ônibus

“As licitações do transporte escolar e as renovações nos segmentos urbano e rodoviário estão puxando as vendas de ônibus no País”, informa Leoncini, vice-presidente de vendas e marketing da Mercedes-Benz. “Somente nos dois últimos meses, negociamos 3.985 chassis de ônibus para diferentes empresas e para o programa Caminho da Escola do FNDE. Esses veículos serão emplacados ao longo de 2018. Com isso, temos a expectativa de aumentar em 15% nossas vendas no segmento de ônibus este ano”.

Entre os grandes negócios de ônibus fechados neste mês de janeiro está a negociação de 1.600 microônibus para o Governo Federal. A Mercedes-Benz venceu a licitação do programa Caminho da Escola do FNDE e os veículos serão distribuídos a municípios em todo o Brasil. Para renovação de frota das empresas de transporte urbano de passageiros, foram negociados, em janeiro, 480 chassis de ônibus da marca, sendo 300 para operações em diversas cidades de São Paulo e 180 para Recife, Pernambuco. No mês de dezembro, a Mercedes-Benz também fechou outros importantes negócios, como os 1.000 ônibus, entre urbanos e rodoviários, para a renovação de frota do Grupo Constantino. Além desse volume, a marca venceu a licitação de 905 micro-ônibus para a Secretaria da Saúde do Estado Minas Gerais, com as prefeituras podendo adquirir seus veículos até o fi m deste ano.

Para Fabiano Todeschini, presidente da Volvo Buses Latin America, a expectativa é de recuperação do setor de ônibus urbanos e rodoviários neste ano no Brasil. “Novas licitações estão para acontecer neste ano, como a da cidade de São Paulo, que certamente vai demandar grandes volumes (cerca de 15 mil ônibus urbanos rodam na capital paulista), e outras capitais, como Curitiba. Além disso, o segmento de rodoviários, especialmente de turismo, estão compradores desde o segundo semestre do ano passado”. Embora torcendo para o mercado nacional voltar aos bons tempos, a Volvo não amargou prejuízo com ônibus. A empresa, segundo Todeschini, “tem vocação exportadora”. No ano passado, 75% dos ônibus comercializados pela marca tiveram como destino as exportações.

A Volvo comercializou 1.055 chassis de ônibus no ano passado, 791 deste total foram exportados. A marca sueca é líder em BRT (Bus Rapid Transit) com mais de 50% de participação na frota circulante neste tipo de sistema de ônibus.

Otimismo também nos implementos

Depois de amargar três anos de retração acentuada, as vendas de implementos rodoviários no primeiro mês de 2018 foram 53,1% superiores ao mesmo período de 2017. A indústria entregou 5.331 unidades ao mercado ante 3.482 produtos no primeiro mês do ano passado. “O primeiro mês do ano costuma ser um período de vendas menores porém estamos saindo da crise e o refl exo é esse desempenho elevado em comparação ao exercício anterior”, afi rma Alcides Braga, presidente da ANFIR- Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários.

Outro ponto importante são as entregas de implementos rodoviários correspondentes às vendas realizadas durante a edição 2017 da Fenatran. No evento, 23 empresas associadas à entidade negociaram em torno de 150 unidades do segmento carroceria segmento reboque e semirreboque. “A dinâmica dos negócios no setor indica que uma vez concluídos os negócios os produtos serão emplacados em momentos diferentes”, explica o presidente da ANFIR. “Assim provavelmente esses emplacamentos deverão aparecer de forma diluída nas estatísticas da ANFIR ao longo dos próximos meses”, conclui Braga.

O segmento Pesado (reboques e semirreboques), que conseguiu registrar resultado positivo no total apurado de 2017, segue em sua espiral de recuperação. No primeiro mês do ano foram emplacados 2.391 produtos ante 1.467 unidades em janeiro de 2017. Isso representa variação positiva de 62,99%.

O setor Leve (carroceria sobre chassis) também iniciou o ano com resultado positivo. Em janeiro de 2018 o setor entregou ao mercado 2.940 produtos contra 2.015 vendidos em igual período de 2017. Isso representou variação positiva de 45,91%. “Ainda é prematuro para que os efeitos da circular 43 do BNDES (publicada em 29 de dezembro de 2017) produza seus efeitos” diz Mario Rinaldi, diretor Executivo da ANFIR.

A circular ampliou para as micro, pequenas e médias empresas a parcela fi nanciável para aquisição de implementos rodoviários em até 100% do seu valor. Antes da publicação da circular 43 o banco limitava o fi nanciamento a 80% do valor do equipamento com juros de 7,5% ao ano. “A atitude do BNDES de exercer seu papel histórico de instituição de fomento da indústria atende a reivindicação da ANFIR feita ao longo do ano de 2017”, afirma o presidente da entidade.

 
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