E tudo começou a bordo de um Fusca

 

A Volvo do Brasil completou oficialmente 40 anos no País em outubro passado. A empresa iniciou a instalação de sua fábrica em Curitiba, PR, em 1977 (o primeiro caminhão foi produzido em 1979). Mas a história dos produtos da marca em solo brasileiro remonta há muito mais tempo, e a maneira como se escolheu a cidade paranaense para sediar a filial brasileira, além da pesquisa feita por executivos suecos a bordo de um fusca nos anos 1960 são saborosos relatos do livro “Fazendo o Brasil Rodar”, redigido pelo jornalista Luiz Carlos Beraldo, profissional que na década de 1980 foi assessor de imprensa da empresa.

CAMINHÃO N12 INTERCOOLER - “FAIXA PRETA”

Os primeiros veículos Volvo em território nacional desembarcaram no porto do Rio de Janeiro em 1934. Para celebrar o aniversário de 40 anos da Volvo, além de pontuar seus lançamentos e inovações tecnológicas, que foram inúmeras neste tempo todo, extraímos do livro de Beraldo fatos pitorescos dos primeiros momentos da Volvo no País.

Há outra curiosidade interessante abordada no livro: a palavra Volvo, que tem sua origem no latim, é traduzida para o português como “Eu Rodo” (nome da revista institucional que a marca edita no Brasil).

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Os produtos Volvo (automóveis, caminhões, ônibus e motores) eram usados em diversos segmentos antes da marca ser obrigada a deixar o País devido à restrição às importações impostas pelo governo brasileiro a partir do final dos anos 1950 e início dos anos 1960, como forma de estimular a instalação e o desenvolvimento de um parque automobilístico nacional.

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A despeito de completar quatro décadas produzindo caminhões, ônibus e motores no País, o Brasil estava no radar da Volvo quase desde sua criação, em 1927. Cinquenta anos antes do início das obras da fábrica da Volvo no distrito industrial de Curitiba, os empreendedores suecos Assar Gabrielsson e Gustaf Larson, fundadores da empresa na Suécia, já planejavam vender veículos da marca no mercado brasileiro, devido ao clima mais favorável e, potencial de crescimento econômico, que sempre enseja forte demanda por veículos de carga.

VOLVO FH12

Um relato de um técnico sueco enviado ao Brasil em 1935 (apenas um ano após a chegada dos primeiros veículos da marca no País) dá conta da respeitabilidade e fama de robustez que os produtos Volvo desfrutavam no mercado nacional. Escreveu Stig Olsen, que já havia trabalhado como chefe de oficina em Casablanca, no Marrocos: “Você pergunta se as pessoas têm confiança nos veículos? Sim, têm.

Levei o maior susto da minha vida quando vi um Volvo projetado para 2,25 toneladas carregado com 10 toneladas! O caminhão arqueava mas não se queixava. As únicas partes que demonstravam sinal de debilidade eram os pneus, naturalmente devido às leis da física”.

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De acordo com o livro de Beraldo, a Volvo quase montou fábrica no Brasil nos anos 1950, quando o governo ofereceu grande incentivo para a instalação da indústria automotiva no País. Contudo, o suicídio do então presidente Getúlio Vargas, em agosto de 1954, sepultou também um projeto que previa a instalação de uma fábrica da marca em São José dos Campos (SP). A instabilidade política e econômica resultante da trágica morte do presidente faria com que a marca deixasse de estar presente no Brasil a partir de então. Mas seus produtos continuariam em operação durante décadas, inspirando a futura instalação da Volvo do Brasil Veículos Ltda., que aconteceria em 1977.

Em maio de 1972, quando o governo brasileiro criou o Befiex – Programa de Benefícios para Estímulo às Exportações –, um plano de incentivo às exportações, começou a se delinear mais claramente a forma como a companhia voltaria ao País. Em agosto daquele ano, Tage Karlsson e Anders Levin, também responsáveis pela área de caminhões, vieram ao Brasil para conhecer melhor a realidade do mercado local.

Conta-se que foi a bordo de um automóvel Fusca, da Volkswagen, que Karlsson e Levin passaram três semanas rodando pelas estradas brasileiras. Foram do Rio de Janeiro a Belo Horizonte, de lá para São Paulo e em seguida para o Sul, passando por Curitiba, em direção a Porto Alegre. No final da viagem, eles elaboraram um minucioso relatório que incluía, entre outros dados, o resultado de uma pesquisa que fizeram pessoalmente, às margens da rodovia Presidente Dutra, uma das principais do País por ligar São Paulo ao Rio de Janeiro, contando caminhões, anotando marcas, capacidade de carga e o estado da frota então existente.

Uma das conclusões da pesquisa foi de que o País possuía uma pequena participação de caminhões pesados em sua frota, o que contrastava com as distâncias e os volumes da economia em expansão durante o chamado “milagre econômico”, em que o Brasil atingia taxas de crescimento recordes.

O relatório de Karlsson, datado de setembro de 1972, recomendava que, tendo em vista o potencial do mercado brasileiro e as oportunidades abertas pelo Befiex, a Volvo deveria instalar uma planta industrial no Brasil. Enquanto prosseguia seus estudos, Tage Karlsson ampliou sua equipe e contratou Peter Ekenger, então diretor da Câmara de Comércio Brasil-Suécia, que seria o primeiro diretor comercial da nova unidade, anos mais tarde.

A decisão estava tomada. Restava definir o local onde a fábrica seria instalada. Vários estudos foram realizados nos anos seguintes. Uma área em Campinas, a pouco mais de 100 quilômetros da capital de São Paulo, chegou a ser considerada a melhor alternativa. Mas o governo sinalizou claramente seu desejo de descentralizar a atividade industrial daquele grande centro urbano. A cidade de Belo Horizonte (MG) também foi considerada, mas acabou excluída por estar longe de um porto marítimo. E Porto Alegre, apesar de forte candidata, igualmente acabou sendo descartada pela distância dos principais centros fornecedores de matérias-primas, peças e componentes, quase todos instalados em São Paulo.

CAMINHÃO NL12 410

Nessa época começava a nascer a Cidade Industrial de Curitiba, que contou com forte apoio de Karlos Rischbieter, à época presidente do Badep – Banco de Desenvolvimento Econômico do Paraná. No ano seguinte, após visitar Bruxelas, na Bélgica, Rischbieter foi a Gotemburgo, sede da Volvo na Suécia, com o intuito de tentar convencer Karlsson a instalar a fábrica da Volvo em Curitiba. “Era novembro de 1973 e fazia muito rio. Tage Karlsson estava ainda mais frio que o clima. Houve um diálogo fantástico: eu perguntei: a Volvo já decidiu construir uma fábrica no Brasil? Ele respondeu: Sim. Já decidiram onde? Ele respondeu que seria no Rio Grande do Sul, por indicação do governo brasileiro. Então eu disse: o governo não indica lugares, apenas veta São Paulo e Região Metropolitana eu aconselharia a Volvo a não definir isso agora, porque em março mudará o governo. Passaram-se mais alguns anos até convencermos os suecos de que Curitiba seria uma boa opção, por estar próxima ao Porto de Paranaguá e também do parque de autopeças de São Paulo. Também tiveram importante participação nesse esforço os governadores do Paraná, Emílio Gomes e Jayme Canet, e, claro, o prefeito de Curitiba, Jaime Lerner”, relata Karlos Rischbieter, que mais tarde se tornaria Ministro da Fazenda do governo presidido por João Figueiredo.

 

 
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