Sem crise

 

A tranquilidade de entender o momento pelo qual está passando o Brasil e não tomar decisões precipitadas é o maior legado da experiência que tive na Scania Ibérica, entre 2010 e 2016, no auge da crise europeia. Outro aprendizado importante desse período foi que, independentemente do momento ser de depressão ou de felicidade, é preciso estar sempre perto do cliente e conhecer suas dificuldades e desafios. Um dos principais objetivos do trabalho da Scania no Brasil durante a atual crise econômica é apoiar a análise de compra do cliente, fazendo com que ele avalie o custo total de manutenção, de consumo de diesel, qual será a vida útil do veículo e seu valor de revenda, e apontar o produto Scania que entregará o melhor custo operacional.

Fui CFO da Scania Ibérica durante cinco anos e meio. Com escritório físico na Espanha, a Scania Ibérica abrange os mercados da Espanha e de Portugal. Quando cheguei à Europa, em 2009, encontrei um mercado local totalmente deprimido, com uma queda vertiginosa no volume de vendas de caminhões e ônibus e a economia entrando em profunda recessão. Assim como depois aconteceria no Brasil, o mercado ibérico também registrara grandes picos comerciais em 2007 e 2008, recordes que foram seguidos por uma forte retração nas vendas de caminhões e ônibus em 2009 e em 2010. A depressão se manteve por quase sete anos e chegou a registrar queda de 75% nas vendas de veículos comerciais.

Na região ibérica, a Scania tem grande penetração no mercado de Portugal e disputa acirradamente com as seis maiores montadoras globais o mercado espanhol. A estrutura da rede de concessionários é muito semelhante à brasileira e a disponibilização de pacotes de serviços, embora mantenha um padrão global, na Península Ibérica se mostra mais madura em termos de receptividade do que no Brasil. Enquanto aqui registramos, hoje, algo em torno de 35% de clientes que adquirem pacotes de manutenção, por exemplo, na Europa mais de 75% dos clientes da marca procuram as revendas Scania para gerenciar a manutenção de suas frotas. Aos poucos, notamos que o transportador brasileiro está mais perceptivo quanto aos benefícios oferecidos pelos serviços da marca, que incluem disponibilidade e rentabilidade.

Aliás, o brasileiro tem uma qualidade indiscutível: está muito mais preparado para enfrentar crises, sejam quais forem. Espanhóis e portugueses são dois povos extremamente trabalhadores e dedicados, mas sofreram muito no período da crise. Os portugueses, principalmente, porque tiveram de suportar, simultaneamente à recessão, os severos cortes de benefícios sociais decretados pelo governo do País para atender as exigências do FMI. Já o brasileiro convive há três anos com esta recessão e se mantém otimista por natureza. Escutamos frequentemente de clientes frases do tipo “os negócios estão paralisados, as vendas estão congeladas, mas a situação vai melhorar”. Mesmo com essas diferenças comportamentais, tanto no Brasil como na Península Ibérica os empresários do setor de transportes revelam perfis semelhantes: mantêm seus negócios familiares, cultuam o carinho e o cuidado com o caminhão Scania e cultivam o apego à marca. Quando surge uma edição especial, por exemplo, a reação é idêntica nos dois lados do mundo: todos querem ser o primeiro a comprar o modelo.

Acredito que a crise que vivemos no Brasil, embora se mantenha em curso, já bateu na curva e o movimento de reação agora se mostra ascendente. A retomada a patamares consideráveis, no entanto, levará seu tempo. Na Europa, a queda nas vendas de veículos comerciais teve recuperação lenta, começando com crescimento anual entre 5% e 10%. Hoje, as vendas representam entre 80% a 90% dos volumes de 2008. No Brasil, a retomada do mercado certamente não reproduzirá volumes semelhantes aos de 2011 e 2013, mas, a seu tempo, alcançará níveis significativos. Dentro do segmento onde a Scania atua, as quedas nas vendas de caminhões estão retrocedendo mês a mês: até abril deste ano, a retração era de 25%; em maio, esse percentual recuou para 17% e em junho retrocedeu para 13%. Estamos numa tendência de melhora, o caminho é manter a calma e buscar eficiência. Estou certo que a Transpodata irá nos acompanhar para registrar e levar aos transportadores esta nova página na história.

 
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