Lições de casa para os próximos 10 anos

 

Nos últimos trinta e cinco anos, desde a crise do México, enfrentamos vinte turbulências econômicas. Saímos mais fortes de todas e o mesmo vai acontecer agora. Para o setor de caminhões pode demorar um pouco mais, mas, o que é uma pinta a mais na onça?

Há sete anos, todas as projeções indicavam que o setor de caminhões chegaria a 250 mil unidades por ano em 2017. Se adicionarmos ao Segmento Anfavea de caminhões, os volumes dos modelos com rodagem simples e PBT acima de 3,3 toneladas, onde hoje entram Master, Sprinter, Daily 35 e Foton, esse mercado poderia estar, nesse momento, na casa dos 300 mil caminhões por ano, mas deverá fechar entre 55 e 60 mil, ou seja, 20% das projeções iniciais.

Quem poderia prever o “soft landing” da China a partir de 2013, os financiamentos irresponsáveis do BNDES com juros que atingiram 2,5% ao ano, programas de incentivos governamentais que não decolaram, como o Inovar-Auto, a trapalhada da Petrobrás no suporte ao lançamento do Euro 5 e a crise política que explodiu no final de 2015 e vigora até hoje? É..., o Brasil é dinâmico e ninguém aqui pode reclamar de monotonia.

Fazer planejamento estratégico nesse setor, no Brasil, é tarefa para profissionais resilientes e anciãos. Resilientes, porque a cada dia temos uma surpresa nova e o planejamento de ontem talvez não valha amanhã; anciãos, porque quem vive o setorhá décadas sabe que o mercado de caminhões continuará sendo cíclico, enquanto muitos compram por necessidade e alguns por oportunidade de investimento.

Entrar nesse mercado no Brasil não é tão simples. Das novas marcas de caminhões que aportaram aqui nos últimos anos – foram várias – apenas DAF e Foton seguiram seus planos, com alguns ajustes. As redes de concessionárias, de todas as marcas, sofreram duros golpes e muitas fizeram a lição de casa, reduzindo a capilaridade para sobreviver. Difícil será convencer muitos concessionários a reabrirem instalações no futuro, quando o mercado retomar.

O mercado de caminhões acima de 3,5 toneladas, em 2017, deverá chegar ao final do ano com um volume inferior a 45 mil unidades. Imagine que, para esse mercado voltar em cinco anos, aos níveis de 2014, algo como 137 mil caminhões, seria necessário um crescimento médio contínuo de 26% todos os anos, ou seja, algo que nunca ocorreu, nem na fase dourada da década passada, quando a China puxou o mundo sozinha.

A boa notícia é que o mercado vai voltar. A China deve consolidar sua nova matriz econômica até o final de 2018, agora focada em consumo, financiamento e serviços. Significa que o Brasil voltará a se beneficiar da nova demanda de commodities agrícolas e minerais e isso vai ajudar o setor de caminhões. Contudo, o BNDES já deu sinais que o FINAME vai sofrer mudanças em médio prazo e o governo não subsidiará mais as taxas de juros como antes. Os anciãos lembram que, há alguns anos, o FINAME somente financiava caminhões acima de 40 toneladas. Depender dessa forma de financiamento doméstico, como única grande fonte de fomento do varejo, é fincar uma das colunas de sustentação do negócio em solo movediço. Todas as vezes que o BNDES suspende o FINAME temporariamente, o mercado para, esperando um novo sopro de oxigênio. Bem, deixo o recado para as empresas, busquem formas alternativas de financiar o varejo antes do mercado retomar para valer.

As redes de concessionárias ainda são o elo mais frágil da cadeia e nem todas as montadoras fizeram a lição de casa em tempo. Quem optou pelo diálogo e parceria, vai sair na frente quando o mercado retomar. Quem optou pelo conflito, terá que encontrar muitas explicações para dar à matriz nos anos seguintes.

As novas tendências de conectividade, energia limpa, veículos autônomos, internet das coisas, manufatura 4.0 e inteligência decentralizada de operações, chegarão mais cedo do que se imagina no Brasil e logicamente, afetarão o setor de caminhões, a forma como se pensa, produz, vende e recompra. Sendo assim, os próximos anos nos reservam muitas novidades, tanto em produto quanto em gestão. Aproximadamente 65% das novas competências de gestão, a serem exigidas no início da próxima década, só estão presentes hoje em apenas 20% da atual força de trabalho.

 
LEIA TAMBÉM