Uma edição histórica

 

Os últimos dez anos, exatamente a idade de Transpodata, foram os mais espetaculares e desafi adores da história moderna do Brasil. Foi a grande década dos desafi os. Em 2007 a Europa já avistava no horizonte uma crise que, por aqui, o então presidente disse que sentiríamos, no máximo, uma “marolinha”. O Brasil vinha crescendo, em média, 6% ao ano. Uma trajetória fabulosa.

Em 2009 sentimos a tal “marolinha”. Tivemos PIB negativo nos três primeiros trimestres depois de uma sequência extraordinária de quase dez anos de crescimento contínuo. Mas, no último trimestre de 2009, o alívio: crescemos 5,32%. Para compensar ainda mais, iniciamos o primeiro trimestre de 2010 com um crescimento ao estilo chinês: 9,21%, o maior dos últimos 15 anos. Foi um grande ano, 2010.

Naquele início desta década todos os especialistas, até mesmo os mais pessimistas, previam crescimento contínuo para toda a década para o Brasil. A Europa começava a dar seus primeiros sinais de melhoria. Tudo estava em franca expansão. O mercado brasileiro de caminhões, então, deu um salto inacreditável. Desde os anos 1960, a média histórica mensal de vendas de caminhões se posicionava em seis mil unidades, com algumas quedas fortes em anos recessivos. Em 2010 este patamar dobrou, sendo que, em dezembro deste ano, foram emplacados mais de 17 mil caminhões.

Algo inimaginável. Um recordehistórico. A média de vendas mensais de caminhões em 2011 foi de 14 mil unidades. Tudo indicava para um novo patamar e a indústria se preparou para isso. Bilhões de reais foram investidos na modernização e ampliação das linhas, sistemistas e fabricantes de autopeças seguiram no mesmo ritmo, novas indústrias anunciaram operação no Brasil e as chinesas chegaram aqui cheias de esperanças com o mercado nacional.

Decerto que o crédito fácil e barato, nos dois anos seguintes, inflaram artificialmente o mercado. Mas, para analistas mais frios, subtraindo-se esta incongruência financeira do negócio, ainda assim o mercado dava claro sinais de expansão vigorosa. Em 2014 a média caiu um pouco, mas seguia apontando para um volume acima de 12 mil unidades por mês. Não raro executivos já desenhavam um mercado anual próximo a 250 mil unidades por ano a partir do final desta década. Ninguém imaginava, nem nos mais terríveis pesadelos, o que estava por vir. Em dezembro de 2014 foi a última vez, possivelmente nesta década, que o mercado registrou negócios acima de dois dígitos.

Em janeiro de 2015 veio o primeiro choque de realidade. As vendas caíram pela metade quando comparadas com o mês anterior. E, daí em diante, rolamos ladeira abaixo.

O ano terminou com vendas mensais de caminhões muito parecidas com o que tínhamos nos anos 1990. Ou seja, cerca de 5,5 mil veículos emplacados por mês. Mas não era, ainda, o fundo do poço. No ano seguinte, 2016, a média mensal foi de 4,4 mil caminhões emplacados. E, o grande terror, no primeiro bimestre deste ano, a média foi de 2,7 mil unidades. Mas março, abril, maio e junho, ufa, houve, enfim, recuperação.

É possível, embora bem difícil, que tenhamos o primeiro crescimento de vendas de caminhões em relação ao ano anterior depois de três anos de sucessivas quedas. Tudo indica que o segundo semestre deste ano vai ser melhor que o segundo semestre do ano passado. A primeira boa notícia.

Nunca antes o Brasil levou tanto tempo para se recuperar de uma crise. Esta, sem dúvida, foi a mais longa e dura crise que já tivemos. Completar dez anos de atividade em um cenário assim é para os fortes.

Transpodata acompanhou, de muito perto, cada ano desta alucinante década de desafios. Fora esta insanidade econômica do Brasil, agravada com uma crise política sem paralelo em nossa história recente, nos deparamos também, nos últimos dez anos, com um acelerado avanço tecnológico. Se em 2007 ainda estávamos discutindo se a transmissão automatizada poderia ser uma tendência nos caminhões pesados, hoje nos deparamos com a alta conectividade nos caminhões e estamos a poucos passos da condução autônoma.

As transferências tecnológicas não demoram mais anos para chegar ao Brasil como acontecia na década de 1980. Agora tudo é instantâneo. Se a economia melhorar, vamos ver transmissões automáticas e automatizadas nos caminhões mais leves ainda nesta década. E isso já está pronto. Só não acontece por travas em nossa situação econômica. Caminhões autônomos, como já mostramos aqui mesmo em Transpodata, estão operando nas lavouras de cana aqui no Brasil. Mas isso não significa que motoristas ficarão sem emprego. Pelo contrário, ganharão status profissional mais elevado.

Nas próximas páginas, você, leitor, vai encontrar uma série de grandes artigos elaborados pelos principais líderes desta dinâmica indústria de veículos comerciais. Estimulados pela ocasião de nosso aniversário, eles analisaram, de maneira muito pessoal, estes últimos desafiadores dez anos da indústria e da logística no Brasil. É a primeira vez que, em uma única publicação, estão juntos todos os presidentes das montadoras além das principais lideranças e renomados especialistas deste setor, analisando um período especialmente conturbado e tão contemporâneo de nossa história. Esta é uma edição histórica.

 
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