O rei da estrada faz 60 anos

 

O primeiro contato que tive com a Scania eu tinha perto dos 15 anos e, naquele ano 1980, eu não perdia um capítulo do seriado “Carga Pesada”. Gostava de ver aquele possante cara-chata, um caminhão, naquela época, bem diferente dos demais, percorrendo estradas e protagonizando grandes aventuras pelo Brasil com seu motorista Pedro e seu fiel ajudante Bino. A partir daí comecei a me interessar e me encantar pela vida estradeira.

Resolvi ser jornalista e, no começo de 1986, consegui um emprego na Revista O Carreteiro. Fiquei muito satisfeito. Eu queria mesmo é entrevistar os Pedros e Binos da vida. Coisa boa. Conversar com toda esta gente que vive na boleia e ganha as estradas deste Brasil afora. Mas fiquei apenas seis meses na revista. Tempo suficiente para muitas entrevistas com caminhoneiros de verdade e até tive a honra de cobrir a tradicional Festa do Carreteiro daquele ano.


Revista Rei da Estrada, um clássico que circula até hoje.

Em julho de 1986 recebi uma ligação. Era do RH da Scania. Eles me fizeram uma proposta para trabalhar em sua área de comunicação. A princípio relutei. Eu queria ser jornalista estradeiro. Queria viajar e falar sobre este mundão de caminhoneiros. Mas a mocinha do RH logo tratou de me dizer que eles também faziam uma revista e que, nesta revista, eu faria essas reportagens que eu tanto gostava. O nome da revista me entusiasmou: Rei da Estrada. Imediatamente imaginei aquela máquina possante do Pedro e Bino, um pesadão digno de imperar pelas estradas brasileiras.

Naquela época a Scania estava se preparando para celebrar 30 anos de Brasil. E em meu primeiro dia de trabalho fui conhecer a linha de montagem. Nunca antes havia visto nada igual. Fiquei fascinado. Os modelos T (bicudo) e R (cara-chata) da Série 2, lançados em 1981, eram produzidos em uma linha em forma de U, começavam com grandes longarinas que, a cada etapa, iam ganhando forma de caminhão. Depois recebiam o motor, que também era produzido ali, e, por fim, as famosas cabinas brilhantes eram acopladas. O caminhão ganhava suas formas até enfim, alguns postos adiante, botar as rodas no chão pela primeira vez e sair rodando.

Quando o Brasil começou a ser rodoviário, os primeiros pesados eram Scania.

Uma visita à linha de montagem em meu primeiro dia de trabalho. Não poderia ser um início mais perfeito. Nada mais inspirador para, em seguida, dar uma volta nos dois caminhões. Já tinha entrado em caminhões velhos e pequenos que fediam a diesel. Mas ali, dentro daquelas máquinas novinhas em folha, ao ouvir o motor tinindo e roncando com força, pude entender o que significava verdadeiramente o termo “Rei da Estrada” e o sentimento dos atores Antônio Fagundes e Stênio Garcia que marcaram minha adolescência como protagonistas de Pedro e Bino, do antológico seriado “Carga Pesada”.

No ano seguinte, em 1987, meu chefe, Ademar Cantero, um mestre do jornalismo corporativo que nos deixou no ano passado, me encarregou de preparar o material que contaria a história das três décadas da Scania no Brasil. Eu tinha apenas 22 anos e, para mim, 30 anos era uma eternidade de tempo. Fiz meu trabalho com esmero e mergulhei na história da Scania no Brasil. Estava tudo muito bem organizado nos arquivos: fotos, documentos amarelados, uma edição de 1977 da revista Estrada (que depois mudaria o nome para Rei da Estrada) contando os 20 anos, tudo em mãos. Foi um trabalho tranquilo e agradável.

De um apertado galpão no bairro paulistano do Ipiranga para uma fábrica completa em São Bernardo do Campo.

Com documentos fartos e organizados, ficou fácil contar a história da Scania no Brasil. E quem é do ramo sabe que a Scania chegou por aqui 2 de julho de 1957 como Scania-Vabis do Brasil e que, naquela época, na Vemag, os caminhões vinham emCKD da Suécia e eram montados em um velho galpão no Ipiranga, bairro paulistano onde Dom Pedro I deu seu famoso grito libertador.

O galpão de bairro logo ficou pequeno para as ambições da Scania no Brasil. Em 1958 a Scania montou seu L 75 com 35% de componentes nacionais. No ano seguinte monta sua fábrica de motores no mesmo bairro e, dois anos depois, inaugura sua grande fábrica no espaço onde ainda ocupa hoje em São Bernardo do Campo, SP. Daí para frente, a Scania começa sua mítica trajetória de produzir no Brasil caminhões que rapidamente se transformaram em sinônimo de mais força e mais potência.

O processo de produção evoluiu muito, mas o orgulho de cada colaborador em fazer parte desta família é o mesmo desde 1957.

O brasileiro estava mais habituado em ver nas estradas caminhões pequenos e, de repente, em meados dos anos 60, começa a ver aquelas máquinas alaranjadas, apelidadas de jacarés”, puxando longas carretas. Nos anos 70, os “jacarés” imperam soberanos. E, em 1974, a marca apresenta, pela primeira vez, um pesadão “cara-chata” ao mercado brasileiro. Deste momento em diante, quem pensasse em caminhões de grande porte imediatamente uma marca vinha em mente: Scania, o “Rei da Estrada”.

Como disse, a Scania tem tudo isso muito bem documentado e organizado. E agora, com os avanços da comunicação, com um breve passeio pelo Google você puxa a história toda, ano a ano, de cada montadora. Por isso mesmo seria chover no molhado recontar a trajetória da Scania aqui. Resolvi, então, contar o que não está nos arquivos e muito menos no Google.

A história documentada é marcada por grandes momentos da Scania: inovações, pioneirismos, lançamentos marcantes e muitos produtos icônicos. Mas, para tudo isso dar certo, foi preciso muito suor, esmero, dedicação, estresse, trabalho duro e perseverança de muitos brasileiros e suecos. Quando completou 30 anos, a Scania já tinha no Brasil um departamento de engenharia muito bem estruturado, uma fábrica plena, uma área de vendas motivada, uma rede de concessionárias ativa e um programa de pós-venda eficiente. Em meados dos anos 80 já se falava, tanto quanto agora, na famosa equação melhor relação custo/benefício do mercado. A Scania levou 30 anos para se consolidar no Brasil como marca que entrega alta qualidade em transporte rodoviário tanto de carga quanto de passageiros e, depois, nos outros 30 últimos anos, trabalhou fortemente para manter esta imagem.

Naquele distante início dos anos 80, a empresa já sabia muito bem o que queria do Brasil no médio e no longo prazo por isso começou a contratar talentos. Essa é a parte da história que não está alardeada nas mídias. Por experiência própria, posso assegurar que os suecos sempre diziam que tecnologia sempre será disponível a todos os concorrentes, por isso os grandes talentos, que são raros, sempre farão a diferença. A Scania investiu muito, e fortemente, em pessoas. E investir em pessoas não significa apenas treiná-las mas sim valorizálas em todos os aspectos. Quando entrei na Scania encontrei gente motivada e satisfeita com a empresa.

Vi trabalhador de chão de fábrica explicando coisas para executivos engravatados que os ouviam com humildade e atenção. Vi mulheres em postos importantes de comando. Vi, no começo dos anos 1990, uma revolução nos processos de produção com a introdução do “just in time” das células de trabalho onde cada unidade funcionava como uma pequena empresa e tinha a responsabilidade por garantir alta qualidade no que fazia e no serviço que entregava para próxima célula.

Também peguei um momento particularmente conturbado no movimento sindical dos metalúrgicos do ABC mas que pouco afetou a Scania exatamente porque a comissão dos trabalhadores sempre sentava junto com o alto comando da empresa para discutir melhorias e, não raro, os acordos assinados com a Scania sempre traziam mais vantagens. Foi nesta ambiente que também vi surgir grandes profissionais em áreas como produção, vendas, compras, engenharia e serviços. Muitos fizeram carreira de sucesso na própria Scania e estão lá até hoje ocupando cargos importantes e outros tantos foram contratados a peso de ouro por outras montadoras.

Foi na Scania, fortemente influenciada pela cultura sueca baseada no social-capitalismo, que observei pela primeira vez o significado do respeito pelo profissional. Um lugar onde, mais importante que a hierarquia, era o valor de cada especialista em sua área de atuação. Vi presidente consultar um jovem eletricista vestido com seu macacão para saber que tipo de lâmpada seria mais apropriada para sua sala. Eu já havia trabalhado em bancos e nunca tinha visto nada igual. Nem mesmo nas redações de revistas e jornais se encontrava tamanha facilidade de comunicação vertical e horizontalmente.

13 dos meus 32 anos de experiência como jornalista passei dentro da Scania. Visitei mais de 300 clientes das mais variadas aplicações do produto fazendo reportagens para a revista Rei da Estrada. Estava lá quando a Scania lançou sua famosa Série 3, em 1991, os pesados mais modernos daquela época, caminhões que chegavam a 450 cv de potência e se transformaram rapidamente no maior sucesso de vendas da marca.

Neste ínterim, nos anos 90, a Scania já se mobilizava para demonstrar o quanto os caminhões de cabina avançada eram mais eficientes. Era preciso quebrar um paradigma e tanto no mercado brasileiro pois caminhoneiro torcia o nariz para os cara-chata. Diziam que era uma Kombi gigante. O preconceito era grande e o desafio das áreas de comunicação, marketing e engenharia de vendas era provar, cliente a cliente, as vantagens operacionais do carachata.

Em 1997, nos 40 anos de Scania no Brasil, mais uma vez preparei todo material para contar a história das quatro décadas da empresa. A linha do tempo já estava praticamente pronta. Só precisei acrescentar os 10 anos que presenciei “in loco”. No ano seguinte, 1998, outro grande desafi o: lançamento da Série 4. Eram veículos verdadeiramente surpreendentes sob todos os aspectos: design mais elegante, interior mais confortável, motores mais potentes e novidades tecnológicas como o inovador sistema auxiliar de freios batizado como Scania Retarder, dispositivo capaz de fazer um caminhão descer a serra, carregado, sem ser necessário tocar o pé no freio.

Junto com a Série 4 a Scania promoveu outra revolução em seus sistema produtivo: introduziu aqui o que já fazia sucesso na matriz, na Suécia, o sistema modular. Uma ideia incrivelmente simples e ao mesmo tempo engenhosa que permitia, resumidamente explicando, que um reduzido número de componentes, por meio de diversas combinações, pudesse criar centenas de modelos diferentes de caminhões de acordo com a necessidade e aplicação de cada cliente.

A Scania tem uma peculiaridade interessante: é uma empresa que olha sempre para o futuro mas confere um grande valor ao seu passado. Vira e mexe lança séries especiais homenageando seus grandes momentos do passado. Em 1991 lançou a série especial “Jubileum” para marcar o centenário da marca no mundo; em 2000 lançou a série “Milenium” e, em 2001, impactou a Fenatran com a série “Horizontes” homenageando os antológicos modelos “jacarés” que eram sempre reconhecidos não só pelo ronco do motor mas também pela marcante cor laranja. Para celebrar os 50 anos, em 2007, a empresa lançou a série “Silver Line” e, no mesmo ano, é lançada a Série P, G e R (já sem o “bicudo”).

Os “bicudos” foram extintos em 2003. Enfi m, os cara-chata ganham a preferência nacional. Toda indústria se benefi ciou com a mudança e o Brasil assumiu, em defi nitivo, características do mercado europeu de caminhões deixando qualquer infl uência do mercado norte-americano de lado.

A partir do ano 2000 eu já estava escrevendo em revistas do setor. E, desde então, e até agora, só acompanho a trajetória da Scania olhando-a como jornalista do setor e não mais do lado de dentro. Agora, aos 60 anos, saudosista como sempre, a Scania celebra sua condição sexagenária com a série especial em homenagem ao modelo 113, que foi lançado em 1991 e se tornou seu maior sucesso de vendas. É bacana ver um moderno Streamline, com todo arrojo de um caminhão genuinamente Premium, vestido “a la anos 90” com aquela clássica pintura azul clara adornada com uma faixa tricolor de rosa, branco e lilás.


Uma marca que mira o futuro mas sempre valoriZa seu passado.

Ainda tenho bons amigos trabalhando na Scania. A maioria entrou jovem, lá pelos anos 80. Agora estes profi ssionais estão beirando os 30 anos de empresa. Da nova geração, com toda certaza, boa parte estará lá para ajudar a contar, em 2047, os 90 anos de Scania no Brasil. É o grande ciclo. A turma dos anos 80 recebeu da turma dos anos 50 como a Scania fez para construir sua imagem positiva no País em três décadas. E a nova geração se inspira na experiência da galera que entrou nos anos 80. Muita coisa evoluiu mas é possível notar algo que sempre se manteve intacto na Scania: uma paixão muito peculiar de cada um de seus colaboradores para produzir e vender caminhões e ônibus.

 
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