Lavoura hi-tech

 

No início de 2015, Paulo Meneguetti, proprietário de um dos maiores grupos produtores de açúcar do Brasil lançou um desafio ao presidente do Grupo Volvo América Latina, Wilson Lirmann: produzir um caminhão que não danificasse os brotos de cana-de-açúcar durante a colheita.

Meneguetti, que também é diretor financeiro do Grupo Usaçúcar, há muitos anos vem contabilizando prejuízos nesta fase da colheita mecanizada. Os caminhões que trabalham no “transbordo” (este é o nome técnico deste processo quando a colheitadeira lança a cana diretamente do solo para a caçamba do caminhão), muitas vezes saem alguns centímetros da trilha e esmagam os brotos (nome técnico agrícola: soqueiras).

Gilberto Ribas, vice-presidente de engenharia da Volvo.

Um erro muito comum e humano mas que, quando multiplicado por 400 caminhões modelos VM, da Volvo, que trabalham em regime de 24 horas, sete dias por semana, pode gerar um prejuízo astronômico por safra. Meneguetti, que tem toda operação de suas dez usinas instaladas no Norte do Paraná, planilhada, tem na ponta da língua o prejuízo com os “pequenos e corriqueiros” erros humanos: quase 50 milhões de reais por ano. Diz o empresário: “o pisoteio e a compactação do solo provocados pelos caminhões que trafegam ao lado das colhedeiras são, atualmente, o principal malefício da cultura da cana-de-açúcar no Brasil, maior inclusive que os problemas provocados pelo clima e por pragas”.

Diante deste pedido e ao compreender o tamanho do prejuízo com a operação, Lirmann tratou de chamar seu chefe de engenharia, Gilberto Ribas, vice-presidente a área, e passou a missão: “acelerar o desenvolvimento do caminhão autônomo no Brasil”. Missão dada, missão cumprida. Em um ano e meio, em meados do ano passado, um protótipo do VM Autônomo (este cujas fotos ilustram esta matéria) já estava em testes na Usina Santa Terezinha, em Maringá, PR, onde fica a sede do Grupo Usaçúcar.

Tecnologia já existente acelerou o desenvolvimento do autônomo nacional.

A Volvo diz que não mediu esforços, nem dinheiro, para fazer o projeto. “Nesta primeira fase do desenvolvimento, o foco não foi a viabilidade econômica, mas sim eficiência operacional do produto”, comentou Bernardo Fedalto, diretor de caminhões Volvo no Brasil. Portanto, ainda não é possível falar de valores.


Bernardo Fedalto, diretor de vendas da Volvo: “Vendas do autônomo só daqui dois anos, mas sistema para aumentar eficiência no transborto já está disponível”.

Instigado a estimar o preço do produto, Fedalto tem um bom argumento: “cada caminhão operado manualmente gera, por safra, prejuízo de 120 mil reais ao pisotear, acidentalmente, brotos de cana. Como o caminhão autônomo vai zerar estes incidentes, é possível avaliar claramente o quanto dá para economizar na operação. Imagino que este produto certamente se pagará em pouco mais de duas safras”. O caminhão VM, não autônomo, custa, em média, 250 mil reais.

Gilberto Ribas, o chefe da engenharia, escalou uma seleção de engenheiros composta por 16 profissionais da Volvo do Brasil, cinco da Suécia e mais três da própria Usaçúcar para entregar o protótipo em tempo hábil. “Nos valemos da tecnologia já existente e adaptamos sensores e parâmetros específicos para que o caminhão entregue alta eficiência na colheita da cana”, comenta Ribas.

Antenas GPS de alta precisão garantem que o autônomo ande na linha.

A experiência positiva com veículos autônomos fora de estrada a Volvo já tinha em minas profundas na Suécia, com veículos modelo FMX. Não faz muito tempo, a empresa apresentou um caminhão autônomo que trabalha na mineradora sueca Boliden, especializada na extração de minérios como zinco, bronze, alumínio e ouro.

Computador de bordo com mapa digital do canavial orienta a direção precisa do trajeto.

O caminhão autônomo minerador transporta cargas de 25 toneladas dentro da mina de Kristineberg, no Norte da Suécia. “Foi o primeiro caminhão autônomo do mundo a ser testado em uma operação subterrânea, a 1,3 mil metros abaixo do nível do solo”, diz Hayder Wokil, diretor de automação do Grupo Volvo. O veículo faz parte de um projeto para o desenvolvimento de tecnologias com o objetivo de melhorar o transporte e a segurança em minas.

Agora o Brasil entra no cenário internacional com o primeiro veículo autônomo a ser desenvolvido e testado na América Latina. Hayder Wokil acompanhou a apresentação do caminhão para a imprensa brasileira e internacional e destacou que “a automação traz benefícios para a produtividade, para a segurança e para o meio ambiente”.

O VM Autônomo canavieiro ainda precisa de mais testes e vai entrar na fase de ajustes de componentes para torná-lo “economicamente viável”. Segundo Fedalto a estimativa é que este veículo possa ser comercializado entre o segundo semestre de 2019 ou primeiro semestre de 2020. “Mas a boa notícia é que, com este veículo, desenvolvemos um sistema que já pode equipar os VM novos e seminovos que serão utilizados no transbordo”.

Fedalto disse que este novo sistema, basicamente um geolocalizador com sensores que fazem com que um monitor aponte ao motorista exatamente a linha que o caminhão deve seguir e avisa quando o caminhão “sair da linha”, será lançado oficialmente na próxima Fenatran, que acontece em outubro, e será item opcional nos modelos VM para operação de transbordo de cana. “Além disso, o dispositivo poderá ser comercializado separadamente para equipar modelos mais antigos do VM”.

Naturalmente que o sistema não terá a mesma eficiência do caminhão autônomo uma vez que ainda vai depender da condução do motorista, “mas certamente vai minimizar substancialmente as perdas com a condução manual sem este assistente de direção”, complementa Fedalto.

Como funciona o autônomo brasileiro

Depois do mapa digital do canavial ser inserido no computador de bordo do caminhão, o sistema reconhece precisamente as linhas da plantação, evitando o pisoteamento. O papel do condutor é conduzir o veículo até o início da linha na lavoura, encontrando a rota a ser seguida, e depois retirá-lo da plantação para fazer o transbordo nos veículos de transporte que levarão a carga até a usina de açúcar.

O sistema é composto por duas antenas GPS de alta precisão (GNSS/RTK), parte do sistema VDS (Volvo Dynamic Steering, que gerencia o esterçamento das rodas), dois giroscópios de alta sensibilidade e um display posicionado no interior da cabine do caminhão, que funciona como interface homem-máquina. Além de parte do VDS da Volvo Trucks, o novo veículo assimilou, por exemplo, o Co-Pilot da Volvo Construction Equipment, e também dispositivos da Volvo Penta e da Volvo Bus, respectivamente para o posicionamento do caminhão nos mapas e para a integração na arquitetura eletrônica do veículo.

O VM Autônomo utiliza a tecnologia RTK (Real Time Kinematics) para geolocalização. Usando unidades de medição de inércia, os chamados giroscópios, o sistema identifica detalhadamente a inclinação e o deslocamento do veículo, tanto da cabine como do chassi, bem como seu movimento relativo, inclusive a angulação do terreno. O controle lateral do caminhão é extremamente preciso, justamente para que os pneus não passem por cima das soqueiras.

Crescimento sustentável

Um dos maiores produtores e exportadores de açúcar do Brasil, o Grupo Usaçúcar prevê aumentar sua produção, alcançando até 2020, a marca recorde de 19 milhões de toneladas de cana-de-açúcar processadas, cerca de 5% a mais que o volume atual de 18 milhões de toneladas. “Queremos aumentar a produção, mas de forma gradativa e sustentada”, declara Paulo Meneguetti, proprietário e diretor fi nanceiro e de suprimentos do Grupo Usaçúcar.

A meta para os próximos cinco anos é recuperar a idade média do canavial, aumentar a produtividade no campo e garantir uma oferta maior de cana, visando o aumento da produção de açúcar. Terceiro maior exportador de açúcar do País nos últimos dois anos, com 5,5% do volume total de 28,9 milhões de toneladas exportadas em 2016, o grupo paranaense cresceu 25,6% nas vendas externas em comparação com 2015.

No ano passado, o grupo bateu seu recorde histórico de produção com 18,1 milhões de toneladas de canas processadas. De acordo com Meneguetti, a estratégia agora é incrementar a produtividade gradual e anualmente, melhorar as lavouras e diminuir as perdas utilizando toda a tecnologia disponível, tanto nas plantações como nas usinas.


Paulo Meneguetti, proprietário e diretor financeiro do grupo usaçúcar.

O Grupo Usaçúcar tem atualmente 10 unidades de produção espalhadas por todo o Norte e Noroeste do Paraná, um complexo logístico em Maringá, e uma participação no Pasa Paraná, no Porto de Paranaguá, o primeiro terminal exclusivo para embarque marítimo de açúcar a granel da região Sul do Brasil.

 
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