Ceticismo entre os transportadores

 

A infraestrutura no Brasil sempre foi tema de debates e discussões acerca de seu atraso e falta de investimentos em diversas áreas, o que traz retrocesso para o País, aumenta o Custo Brasil e tira a nossa competitividade em relação a outras nações. Quando se fala em estrutura viária e de transportes então, o problema é histórico e crônico.

Desde o processo de industrialização, da instalação da indústria automobilística e a opção pelo modal rodoviário como o principal na matriz de transportes, o Brasil luta para tirar o atraso entre o crescimento da demanda por ruas, avenidas e rodovias e a real oferta de novos projetos que realmente atendam às necessidades do País.

Quando juntamos aeroportos, portos e outros setores que precisam de infraestrutura em dia para funcionar, temos o retrato do atraso da logística brasileira. Em março o governo federal anunciou um pacote de novas concessões e privatizações para levantar R$ 45 bilhões em investimentos em infraestrutura de transporte, energia e saneamento, uma notícia que agitou o mercado em princípio, mas que não empolgou, como já é tradição.

O anúncio da renovação da licitação da Rodovia Presidente Dutra, do leilão de trechos da BR-101 e de outras rodovias importantes, até com promessa de redução dos pedágios, a notícia da renovação antecipada de contratos ferroviários e o leilão de portos e aeroportos ficaram longe de empolgar o mercado, que sofre com um atraso, um “Custo Brasil”, pagando uma conta de 20% pelas perdas relacionadas à falta de infraestrutura viária e até mesmo ruas e avenidas ruins contribuem para dificultar os processos logísticos.

“Os atrasos nos investimentos em infraestrutura viária e de logística e transporte no Brasil são um problema crônico que atrapalham todo o processo do transporte no nosso país. Ser transportador no Brasil é mais caro do que em outros países justamente porque nossa matriz é rodoviária, mas não temos estradas decentes para escoar as nossas produções”, diz Liemar Pretti, transportador e gestor de frota de caminhões, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga do Espírito Santo (Transcares).

De acordo com Pretti, a falta de cuidado com a infraestrutura traz muitos problemas e prejuízos para uma empresa de transporte. “Colocamos para rodar caminhões com alta tecnologia do Século 21 e, em contrapartida, o governo nos oferece estradas medievais”.

Devido à falta de estradas em boas condições, toda a indústria do transporte é obrigada a dispor de profissionais a mais para cuidar dos problemas como quebras. “Somos obrigados a ter oficinas de manutenção em diversos pontos e os prejuízos são grandes com diversas quebras nos trajetos”.

Para Pretti, as montadoras produzem atualmente caminhões robustos e de alta qualidade, “mas não existe tecnologia que suporte as péssimas condições das estradas brasileiras”.

Empresários do setor estimam que os custos referentes às estradas ruins e à infraestrutura deficiente chegam a representar até 20% do faturamento. Os caminhões que conseguem sair incólumes dos buracos são pegos pelas filas intermináveis para o desembarque. “De uma maneira ou de outra, amargamos prejuízos”, diz Pretti.

No Mato Grosso e no Pará, vimos recentemente os problemas de falta de trafegabilidade e atoleiros na rodovia BR-163, que liga a região produtora de soja aos portos de escoamento na Região Norte. Cerca de cinco mil caminhões ficaram até três semanas presos na lama sem poder andar por causa da falta de condições da rodovia.

O problema chegou a fazer com que transportadoras e caminhoneiros autônomos recusassem o frete para a região. Levantamentos do próprio governo revelam que a falta de pavimentação da BR-163 gera prejuízos da ordem de R$ 2 bilhões por ano para a economia nacional. Devido aos atoleiros, o preço dos fretes aumentou. O transporte de uma tonelada de soja de Sinop (MT) para Miritituba (PA) custa, atualmente, R$ 200, ou seja, R$ 30 mais caro que antes dos atoleiros.

O empresário Pretti acredita que as novas concessões e leilões do governo, além de fazer caixa, ajudam a aliviar o problema, mas não são uma solução boa para o transporte brasileiro. “Com certeza elas não irão resolver o gigantesco problema de falta de estrutura viária no Brasil, mas nós precisamos acreditar que elas ao menos vão trazer algum alívio.

Aqui no Espírito Santo, por exemplo, tivemos há algum tempo a concessão de diversos trechos de rodovias federais, mas até agora essas estradas não foram duplicadas. Falta seriedade para tratar dos problemas viários no Brasil”, diz o transportador.

 
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