Alcides Braga - Presidente da Anfir

 

Para o presidente da ANFIR, Alcides Braga, o pior momento da economia ficou para trás, no primeiro semestre deste ano. “Podemos esperar que a situação fique menos pior e por isso o momento é de se concentrar nos negócios e aproveitar as oportunidades como a realização da Fenatran, a maior feira de negócios do setor de transportes do País”.

No mais importante evento do setor, 40 indústrias produtoras de implementos rodoviários já reservaram seu espaço e vão ocupar 13 mil metros quadrados de área de exposição. Braga, que também é empresário, dono da TruckVan, se mostra otimista alegando que quem verdadeiramente conhece o Brasil não deveria estranhar, nem se assustar, com as oscilações e humores da economia. “Depois de cada crise, sempre crescemos, e muito”.

“Agora as empresas terão que se reinventar e será sim necessário ampliar fronteira”

O senhor acredita que, no segundo semestre, há alguma chance de recuperação no mercado?

A tendência é mesmo repetir o cenário do primeiro semestre mas com uma queda menor. A gente estima que esta média de 2,5 mil produtos pesados por mês será a tônica do ano. Acredito que o momento mais agudo da crise foi no primeiro semestre. É provável que haja uma leve melhora no segundo semestre, mas nada significativo. A queda será mesmo de 50% no segmento de pesados. Vamos fechar o ano com 35 mil produtos. Mas só o fato de cair menos no segundo semestre já é motivo para se comemorar.
Esta queda média de 40%, em caminhões e implementos, não seria uma readequação lógica do mercado que, há alguns anos, vem sendo aquecido de maneira artificial, especialmente com financiamentos mais baratos oferecidos pelo BNDES?

Certamente o mercado está se readequando para um patamar com volumes mais baixos e, sim, houve um período de aquecimento artificial. Mas esta retração, definitivamente, não é o patamar. Há tempos estamos avisando que nossas vendas estavam artificiais. Não tenha dúvida que metade de nosso crescimento de 2013 para 2014 foi fundamentado na oportunidade e não na necessidade. Fizeram um movimento de choque para ressuscitar defunto com linha de crédito mais barata. Mas temos que considerar a média de 2010 a 2013, que é de 50 mil unidades por ano. Acreditamos que o mercado vai se ajustar a está média anual de 50 mil unidades, mas não vai acontecer este ano. Esperamos, e vamos trabalhar, para chegarmos a este volume no ano que vem. Porém, euforia não vem mais, nem boom de vendas. Ainda não temos uma perspectiva para chegarmos a 70 mil unidades, como foi em 2013. Mas certamente nos próximos anos teremos uma indústria muito mais forte e eficiente.

O senhor acredita que as regras do BNDES podem mudar novamente?

É possível que sim. Mas independente da taxa estipulada, considerando que a atual ainda é competitiva, é que o sistema volte a financiar 90% do bem.

Quais ações, por parte das empresas, podem ser adotadas para estimular as vendas neste momento?

E em que, efetivamente, o governo poderia ajudar? Estamos se ajustando a este patamar de volume. Mantemos nossa agenda de investimentos para melhorar nossos sistemas, estamos ajustando nossa mão de obra com o atual volume de vendas. Tivemos também o reposicionamento de algumas fábricas. Temos que pensar como vamos sair desta fase. E penso que os que conseguirem sair terão muito mais controle e uma gestão muito mais eficiente. Teremos em 2017 e 2018 uma indústria muito mais forte do que éramos na pré crise.

Qual a capacidade ociosa média da indústria de implementos atualmente?

Se você pensar no que a gente consegue fazer, temos uma capacidade instalada de 215 mil produtos. Se estamos falando de 90 mil produtos este ano, estamos com ociosidade de 50%. Fomos crescendo no período de 2011 a 2014, investimos em crescimento, mas agora o mercado caiu e estamos com esta ociosidade de 50%.

O dólar em alta não favorece as exportações do setor?

Tem também novamente as lições da crise. Nosso setor, historicamente, não é exportador. Quando houve o boom de vendas em 2013, a maioria das empresas focou no mercado interno, que estava favorável. Agora as empresas terão que se reinventar e será sim necessário ampliar fronteira. É um discurso recorrente nos principais fabricantes a busca por oportunidades no mercado externo. Esta experiência tende agora a ser perene. Mas exportar exige muito trabalho, não é só vender para fora. Os resultados não chegarão neste ano neste negócio, mas a longo prazo.

O segmento de pesados (reboques e semirreboques) teve a maior queda, cerca de 50%. E o segmento de leves (carroceria sobre chassis) caiu cerca de 35%. Há algum subsegmento que caiu menos ou, ainda, conseguiu crescer neste ano?

A gente tem a estatística com os movimentos por família de produto, mas os principais segmentos de produtos caíram significativamente. Alguns subsegmentos muito pequenos cresceram de maneira insignificante considerando-se que no ano passado venderam meia dúzia de produtos e, agora, venderam dez. São casos muito pontuais que não seria correto apontá-los como algum sinal de reação em algum setor. Sem sombra de dúvida, não há ninguém se destacando. Não se pode dizer que há algum setor imune ao grande problema econômico do momento. Nos segmentos de não manufaturados, como commodities agrícolas e minerais, por exemplo, onde o forte é a exportação, e com o dólar em alta, pode-se dizer que eles sentiram menos a retração da economia. Mas, ainda assim, houve queda. Pode ser que as importações de combustíveis possam, também, colaborar para uma queda menor nas carretas tanques. No entanto, a queda, no geral, é generalizada. Não podemos mascarar, a coisa está feia mesmo!

O senhor acredita que o governo faz algum movimento este ano com relação à proposta conjunta de várias entidades do setor, inclusive Anfir, para renovação da frota brasileira de caminhões?

A gente toda hora ressuscita o assunto, para não deixar morrer. Vira e mexe, tocamos no assunto para não sair da pauta lá no Ministério da Indústria e Comércio. O projeto é o mais completo já apresentado. Está muito bem elaborado. A proposta sai do campo da falácia e entrega ao governo uma lógica perfeita para se fazer a renovação da frota. Agora os bancos conseguem ter as garantias necessárias uma vez que autônomos e pequenos frotistas já são capazes de comprovar renda. O problema é que o BNDES não tem dinheiro agora. E esta questão trava o processo. Nesta operação tem que valer o “S” do BNDES, que é o social. Eu acho que o governo, infelizmente, não vai olhar para isso neste ano. Mas é imperativo ter um começo. Que comecem com um programa mais modesto, só é preciso começar. É preciso se fazer alguma coisa para renovar a frota brasileira de caminhões e carretas, até mesmo por uma questão de segurança.

“já passamos por problemas piores que não só foram superados como também observamos ondas de crescimento e expansão da atividade econômica”

O Brasil é um país que depende quase que totalmente do transporte rodoviário de carga. E é inegável que o País vai voltar a crescer, considerando que o resto do mundo está economicamente bem. Quando que vocês acreditam que o País retoma este crescimento?

Estamos passando por uma crise que abalou severamente a confiança dos brasileiros no geral. É um momento delicado com sérias implicações políticas. Mas já passamos por problemas piores que não só foram superados como também observamos ondas de crescimento e expansão da atividade econômica em seguida. Nosso setor é composto por empresas nacionais, por empreendedores que conhecem muito bem nosso País. Certamente estamos abalados com esta dramática queda no setor, mas estamos fazendo ajustes, estamos reagindo e, com toda certeza, vamos sair desta crise mais fortalecidos, particularmente sob o ponto de vista de gestão. Não é possível prever quando o Brasil vai voltar a crescer, mas temos total confiança de que esta crise não vai perdurar. Somos um País com dimensões continentais, com 200 milhões de habitantes e é inegável que voltaremos a crescer. Acreditamos que todo o País sairá mais fortalecido desta crise.

Qual a vantagem para o transportador em adquirir implementos com o “selo Anfir”?

Basicamente, confiança. Quem compra um implemento com nosso selo está adquirindo um produto de uma empresa cidadã e que atua em conformidade com as regras estabelecidas. O selo não atesta qualidade e sim que a empresa é regulamentada, que recolhe corretamente seus impostos. Ou seja, que está rigorosamente dentro da legalidade.

“Quem compra um implemento com nosso selo está adquirindo um produto de uma empresa cidadã”

 Qual a posição da Anfir com relação à Fenatran deste ano? Será um evento mais voltado para implementos ou os associados da Anfir também consideram a ideia de não participarem?

Como entidade, entendemos que o evento, que é o mais importante do setor, é uma oportunidade excepcional para demonstração de nossos produtos a nossos clientes diretos. Não podemos nos pautar por uma crise pontual. Penso que uma retração no mercado, ainda que desta grandeza, não deveria afugentar as empresas deste importante evento. Na verdade, ao contrário, deveríamos participar ainda com mais força e entusiasmo com o firme propósito de reverter a queda das vendas. Temos que reagir e não retroceder. O mercado vai mudar, a retomada vai acontecer e não me parece sensato apresentarmos novidades e soluções de transportes a nossos clientes apenas nos bons momentos da economia. Nos momentos mais difíceis também temos que estar ao lado de nossos clientes.

 
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