Concessionário escaldado tem medo de promessas frias

 

O mês de outubro mais uma vez trouxe desânimo para o setor de caminhões nos modelos acima de 3,5 toneladas, segundo classificação da Anfavea. Os úmeros do mercado foram divulgados hoje pela entidade e no acumulado do ano, de janeiro a outubro, emplacados pouco mais de 42 mil caminhões. Em relação ao mesmo período do ano de 2015 estamos contabilizando mais 31% de ueda. Essa classificação não considera os caminhões leves com PBT entre 2,8 e 3,5 toneladas, a qual acrescentaria em volume, algo próximo a 10%.

Juntos, os segmentos de caminhões semipesados e pesados continuam respondendo por quase 60% do mercado de caminhões, exatamente os modelos que mais dependem de financiamento. O mercado em 2016 aponta para um volume total de 50 mil caminhões acima de 3,5 toneladas. De janeiro a outubro deste ano os segmentos de caminhões leves e médios – aqueles que possuem vocação para distribuição urbana e médias distâncias – juntos recuaram 32% em relação ao mesmo período de 2015, enquanto semipesados e pesados juntos recuaram 30%, mas os semipesados, isoladamente recuaram 39%.

Para quem se lembra da euforia no início desta década, projetava-se um mercado anual de 250 mil caminhões em 2016, afinal eram anos de crescimento exponencial e recordes históricos, que dificilmente serão novamente alcançados tão cedo. Bem, chegamos em 2016 com apenas 20% do volume que se projetava para este exato período há 6 ou 7 anos.

Algumas lições podemos tirar disso, entre elas o fato de que a única certeza que temos em projeções de médio e longo prazos no setor de caminhões, é que elas estão erradas, por princípio. Assim, é muito difícil prever os próximos três anos para o mercado de caminhões no Brasil, mesmo porque há fatores positivos que podem impulsionar rapidamente o segmento de pesados e um deles é a safra 2016/2017 que deve vir forte novamente. Em compensação, as restrições de financiamento exercem o fator inverso.

Tenho afirmado há algum tempo que é preciso colocar os pés no chão, mesmo com a retomada econômica que virá. O mercado de caminhões entre 2010 e 2014 foi inflado por elementos e ferramentas de fomento irreais – taxas de juros fixas variando entre 2,5% e 7% ao ano – que incentivaram muita gente a comprar sem necessidade. Naqueles cinco anos foram vendidos 760 mil caminhões acima de 3,5 toneladas no Brasil, uma média de 152 mil por ano e estima-se que atualmente uma frota superior a 100 mil caminhões com menos de 4 anos de uso estejam parados. A questão é que, quando a economia retomar, o mercado precisará inicialmente absorver todo esse volume ocioso, ou seja, será preciso muita cautela para analisar o mercado potencial em 2017 e 2018.

Para que o setor atinja novamente um volume anual de 120 mil caminhões – coisa que aconteceu em 2008 – será necessário um crescimento médio anual de 20% sobre o ano anterior, por 5 anos consecutivos, se levarmos em conta a base atual de 50 mil caminhões em 2016. Cá entre nós, algo inesperado para qualquer projeção responsável, mas como citei antes, projeções nesse setor são estudos etéreos.

As redes de concessionárias vêm sofrendo muito com toda essa situação. Algumas marcas fizeram a lição de casa e as autorizaram a fechar filiais improdutivas e deficitárias. É o mínimo que se pode fazer. Contudo, o subproduto dessa crise nas redes de concessionárias de caminhões será a enorme dificuldade que as fabricantes enfrentarão para reabrir essas filiais daqui a 5 ou 6 anos, quando o mercado de caminhões já tiver retomado seu curso de crescimento, afinal, concessionário escaldado tem medo de promessas frias.

Orlando Merluzzi é consultor de empresas, conselheiro e palestrante, atua há 32 anos no mercado automotivo, 25 dos quais dedicados ao setor de caminhões e ônibus.

 
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