Protagonismo brasileiro

 

A Volkswagen sempre teve bastante apetite para comprar outras montadoras de automóveis (é proprietária de oito marcas de carros). Em caminhões, a marca alemã é dona da MAN, Scania, Volkswagen Caminhões e Ônibus e, agora, tem 16% da americana International. Com a Scania fez assim: primeiro comprou um pedaço pequeno, depois arrematou tudo. Provavelmente fará o mesmo com a International. Na feira de veículos comerciais de Hannover, o IAA, o gigantesco estande da empresa deu destaque para os produtos MAN e Volkswagen Caminhões e Ônibus.

“Foi a primeira vez que ganhamos tanto destaque aqui em Hannover, a principal feira de transporte rodoviário do mundo”, celebra Roberto Cortês, CEO da MAN Latin America. Seu chefe, Matias Miller, CEO da Volkwagen AG, disse aos jornalistas que “conflitos e instabilidade política sempre serão imprevisíveis, mas que, no Brasil, já há sinais da volta da normalidade”.

Os caminhões produzidos na fábrica de Resende, RJ, da linha Constellation entram no portfólio de produtos MAN para serem oferecidos aos países em desenvolvimento. São muitos mercados. Cortês está otimista com o crescimento das exportações para os próximos anos. Mas os caminhões Volkwagen não debutam no mercado externo. 100 mil veículos “made in Brazil” já foram vendidos ao exterior. Agora, com o mercado interno encolhido, Cortês já colocou seus vendedores para abrirem mais mercados pela América Latina, África e Oriente. “Queremos crescer ao menos 5% as exportações no ano que vem”, diz o executivo ao anunciar duas grandes vendas para América do Sul: 150 caminhões Worker para a Bolívia e 140 Volksbus para Argentina. “Hoje nossas exportações representam 15% do negócio, mas nossa meta é que chegue a 30%”, afirma Cortês.

No IAA, o Constellation 24.280 movido a gás natural foi o destaque. O gás é a aposta da MAN para os mercados emergentes como alternativa ao diesel. “Mas o diesel continuará a ser o combustível dominante para os próximos anos em todo o mundo”, afirma Matias Miller. No IAA, enquanto as grandes montadoras flertam com a condução autônoma e a eletrificação para os veículos comerciais até o fim desta década, para países que ainda estão se entendendo com a economia, e buscando um lugar ao sol, já é assaz suficiente motores mais limpos e eficientes movidos a gás.

Também no IAA, para a realidade nacional, a MAN jogou luz em outro destaque da linha Volkswagen, o Constellation 25.420 8x2, edição especial que comemora os 10 anos desta linha de veículos. Este é o caminhão mais potente da Volks, equipado com motor Cummins ISL de 9 litros, que gera 420 cv e 1850 Nm de torque. O câmbio automatizado é o V-Tronic de 16 velocidades da ZF.

Esta é a oitava vez que os caminhões desenvolvidos e produzidos no Brasil participam da feira de veículos comerciais IAA e a primeira que ganham expressivo destaque. “Nesta edição do evento fica claro que deixamos de ser coadjuvantes e passamos a ser também protagonistas”, comemora Cortês.

A Volkswagen Truck & Buses, a dona de todas as marcas de caminhões do grupo, aproveitou o evento para fazer o lançamento global de uma nova empresa cujo nome, em português mesmo, lembra o Brasil: RIO. É uma plataforma digital, aberta para todas as marcas, para, segundo Matias Miller, aprimorar os processos logísticos. A partir do ano que vem todos os caminhões MAN e Scania sairão das fábricas europeias já conectados a este novo sistema. Não há nenhuma previsão para esta nova plataforma, com CEO e staff próprio, começar a operar no Brasil.

Apenas para apreciar, não virá para cá

Por problemas políticos e econômicos, o Brasil há mais de 30 anos é classificado como “emergente”. Eufemismo para disfarçar nosso atraso econômico e tecnológico. As montadoras poderiam trazer para cá o que há de melhor em caminhões e ônibus, mas, para isso, seria preciso encontrar aqui um mercado comprador para estes produtos. Não vão encontrar. Até mesmo para caminhões Euro 5, que não são mais fabricados na Europa civilizada, o negócio está ruim. Imagina se seria viável vender aqui caminhões com a tecnologia de ponta que as montadoras apresentaram nesta última edição do IAA.

Quanto mais sofisticado fica o veículo, maior é seu valor para venda. A conta é simples: cada sensor eletrônico a mais significa umas centenas de dólares a mais no preço do veículo e, em contrapartida, uma baita economia de combustível, ar mais limpo e maior eficiência logística. O mercado europeu já começa a se mostrar potencialmente comprador para produtos de vanguarda como os caminhões e ônibus autônomos e movidos a eletricidade. Já para o mercado brasileiro esta tendência é apenas um curioso, distante e divertido “filme futurista”.

A MAN apresentou a terceira geração do TGX EfficientLine que, com nova motorização e nova caixa automatizada TipMatic, é ainda mais econômico que a geração anterior apresentada no IAA de 2014. A motorização MAN ficou mais potente, mais econômica além de emitir menos poluentes: os TGX estradeiros vão de 540 a 580 cv e tem, ainda, a versão com 640 cv que é orientado para puxar cargas indivisíveis. Estes novos produtos não têm nenhuma previsão de serem lançados no Brasil.

 
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