Veículos serão capazes de ver, julgar e agir - Wilson Bricio, Presidente da ZF

 

Por Redação Transpodata

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Wilson Bricio está há 15 anos da ZF do Brasil, sendo 11 como presidente. Formado em engenharia e pós-graduado em administração industrial, o executivo também participou do Programa de Desenvolvimento de Executivos do IMD, em Lausanne, na Suíça. Além de suas responsabilidades dentro da ZF América do Sul, Bricio atua em diversas associações e entidades de classe nacionais e internacionais, dentre elas na AHK (Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha), onde atuou como Vice-Presidente de 2009 a 2013, coordenando as atividades relacionadas à inovação e atualmente é Board Member e coordenador do Fórum Brasil-Alemanha de Inovação. Em fevereiro de 2015, foi eleito Presidente da Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha (VDI-Brasil). Nesta entrevista exclusiva à TRANSPODATA, Bricio fala de seu assunto preferido: inovação tecnológica e megatendências para os próximos anos no setor de veículos comerciais.

A economia começa a dar alguns sinais de recuperação com a volta da confiança e projeções de algum crescimento do PIB já no ano que vem. Com qual perspectiva o senhor está trabalhando para o final deste ano e o ano que vem?

Nossa perspectiva é de que com efetivo início da retomada da economia, mesmo que timidamente, o mercado já comece a recuperar sua confiança e a sinalizar movimentações de aumento de negócios. Ou seja, esta retomada certamente virá e é apenas uma questão de tempo. Apesar de certamente estarmos preparados para reagir e suportar nossos clientes, entendemos que os volumes de mercado aos quais, apesar da volatilidade, estávamos habituados, ainda levarão muito tempo para serem possivelmente alcançados novamente.

Montadoras de caminhões e sistemistas apresentam inúmeras inovações tecnológicas no País, mas os veículos mais simples continuam sendo os mais vendidos por serem mais baratos. Qual o plano de vocês para convencer este público que é vantajoso se investir mais em tecnologia?

As inovações tecnológicas têm propósitos que vão muito além da automação. Mais do que otimizar a experiência do condutor, a inovação tem como objetivo oferecer o melhor custo-benefício, portanto, investir em tecnologia – assim como o fazemos – significa que o cliente terá melhores resultados que serão convertidos em redução de despesas com o veículo. Além disso, todos os nossos esforços e desenvolvimentos são em prol do aumento da eficiência energética, da performance, da segurança, do conforto do motorista e passageiros e de menores índices de emissões, por exemplo. Tratam-se de quesitos indispensáveis no âmbito deste segmento. Se estes requisitos não são prioridade hoje em todos os mercado, se tornarão em um futuro próximo, não somente em função da necessidade, mas também da própria transformação e exigência dos usuários, além das tendências que vão tomando o seu lugar no dia a dia das pessoas.

“Todos os nossos esforços e desenvolvimentos são em prol do aumento da eficiência energética, da performance, da segurança, do conforto do motorista e passageiros e de menores índices de emissões”

Recentemente a ZF demonstrou na Alemanha sistemas que deixam claro que a tecnologia caminha para a direção autônoma. E esta tendência tecnológica é observada também entre as grandes montadoras. Para o médio prazo, quais destas tecnologias já poderiam ser disponibilizadas ao mercado brasileiro?

No que depender da ZF, todas as tecnologias demonstradas recentemente poderiam ser trazidas ao Brasil em médio/longo prazo. Porém, a grande questão é que para que isso ocorra é necessário que haja demanda dos clientes. Além disso, existe a questão das condições das vias do País que, em sua maioria, precisam de manutenção tanto em estruturas de pista como em sinalizações. Mas entendemos que para o mercado automotivo brasileiro seja importante reconhecer em seus fornecedores a disponibilidade de tecnologia e inovações, de maneira que estejam prontos para atender as necessidades no momento que o mercado exigir. Neste caso, a ZF possui um verdadeiro leque de opções pioneiras.

Sabemos que, cultural e economicamente, o Brasil ainda está bem distante da realidade da Europa ocidental. Como vocês, como uma empresa global, trabalham com estas diferenças quando o desafio é obter escala e prover tecnologia para todo o mundo?

As diferenças são administradas a nível global. Nossas soluções nos permitem adaptações conforme as características de cada país, aplicação, etc. Entendemos que as realidades de cada região (econômica, cultural, infraestrutura) são bastante distintas e isso não é algo novo para a ZF. Nossos mais de 100 anos de experiência nos garantem a expertise de gerenciar essas diferenças e adaptar os portfólios de produtos de acordo com as condições e necessidades de cada região. No Brasil, por exemplo, é imperativo desenvolvermos processos que garantam a flexibilidade necessária para atender a segmentos de mercado com volumes baixos.

Na sua opinião, considerando os segmentos de caminhões, ônibus e máquinas agrícolas, qual estaria mais preparado para, realmente, começar a operar com tecnologias que permitem a condução semi-autônoma?

Considerando que máquinas agrícolas já operam guiadas por GPS – o que as mantém no curso programado e garante melhores resultados na agricultura de precisão – acredito que o segmento agrícola seja o que oferece as melhores condições para receber tecnologias de condução semiautônoma. Graças à atuação das máquinas em conjunto com a tecnologia, existe o aumento da produtividade e da economia para evitar que o trabalho seja feito repetidamente no mesmo local e para garantir a uniformidade no momento do plantio. Além disso, a infraestrutura aos redores é mais facilmente adaptável se comparada às rodovias e ruas.

Qual a participação da engenharia da ZF do Brasil no desenvolvimento destas novas tecnologias de condução autônoma?

É fato que o berço das soluções ZF para condução autônoma é a Alemanha e os demais centros de P&D pelo mundo. Por este motivo, os profissionais da ZF do Brasil mantêm contato constante com as unidades mundiais, principalmente com as alemãs, a fim garantir a atualização sobre as peculiaridades do mercado brasileiro e com isso colaborar com uma parcela do desenvolvimento de novas tecnologias, bem como para atualização sobre as tendências mundiais voltadas para a mobilidade. Por outro lado, por mais que venha diminuindo com o tempo, o gap no nível de tecnologia adotados pelos mercados brasileiro e europeu ainda é grande, fazendo com que a demanda por aplicações locais tenda a ocorrer como consequência de rupturas tecnológicas regulatórias.

“Nossa expectativa é que as transmissões automatizadas e até mesmo as automáticas continuem em uma crescente no mercado, o que já temos analisado ser uma tendência irreversível”

O que o consumidor brasileiro pode esperar, em termos práticos, da aquisição da TRW pela ZF?

Com a aquisição da TRW, passamos a trabalhar de maneira mais intensa as megatendências de automatização, integração, segurança e eletrificação que estão transformando o mundo da mobilidade – de maneira rápida, duradoura, global e praticamente em todos os setores. A partir da aquisição, a ZF está com um portfólio muito mais abrangente para todos os segmentos onde atua. Além disso, aplicamos todo o nosso know-how para conceber não apenas soluções isoladas, mas desenvolver sistemas inteligentes, sempre visando proporcionar um verdadeiro valor agregado na aplicação da prática. Em relação aos serviços, pudemos ampliar nossa rede de distribuidores, atendimento e de serviços e fortalecemos nossa equipe de P&D (pesquisa & desenvolvimento) com a união de experiências vindas de ambas as empresas.

Como estão as negociações para o fornecimento de transmissões para a Foton? E, em caminhões, além da MAN, DAF e Iveco, alguma outra marca interessada em ter transmissões ZF?

A ZF já é fornecedora da Foton com a transmissão para comerciais leves Ecolite, que equipa toda a gama de veículos da marca disponível no Brasil. Com relação a novos clientes, não é possível divulgar quais montadoras devido a confidencialidade dos programas, mas as negociações estão avançadas. Primeiros testes devem iniciar no segundo semestre de 2016.

As transmissões automatizadas já começaram equipar os caminhões semipesados e alguns modelos de médios. A indústria diz que ainda não é possível equipar veículos leves com este tipo de transmissão por causa do custo elevado do equipamento em comparação com o valor do veículo. O senhor acredita ser possível mudar este quadro?

Acredito que essa tecnologia entrega um excelente custo/ benefício ao caminhoneiro ou frotista, impactando na demanda das montadoras. As trocas das marchas são feitas na faixa econômica da rotação do motor reduzindo o consumo de combustível e a emissão de CO2 na atmosfera, agindo em prol do meio ambiente. Além disso, as transmissões automatizadas garantem trocas mais rápidas e ao mesmo tempo suaves, aumentando significativamente a durabilidade de todo o trem de força e reduzindo o risco de manutenção corretiva. Outra questão relevante para o aumento da procura é o maior conforto que a transmissão automatizada permite ao motorista, reforçado pelo fato de que com as trocas automatizadas, o condutor pode se atentar a outros fatores que interferem em sua viagem, como condições de pista e tráfego e consequentemente aumentando a segurança. Mas vale lembrar que a tecnologia ideal de automação depende naturalmente da aplicação. O segmento dos comerciais leves até 10t já apresenta e deve manter a preferência pela adoção de transmissões automáticas, ao invés das automatizadas.

Como o senhor vê o mercado brasileiro de veículos comerciais, sob o ponto de vista tecnológico, daqui para o final desta década? Quais inovações tecnológicas teremos aqui no Brasil? E em quais a ZF estará mais presente?

Nossa expectativa é que as transmissões automatizadas e até mesmo as automáticas continuem em uma crescente no mercado, o que já temos analisado ser uma tendência irreversível. Além disso, por acompanhar as tendências mundiais, notamos que todas elas caminham para um futuro conectado com processos cada vez mais automatizados. E a ZF trilha esse caminho, tanto com soluções para gerenciamento de frotas como para melhores condições de trabalho para os condutores com produtos cada vez mais inovadores que oferecem maior conforto e produtividade às operações. Certamente a ZF continuará sendo referência no que diz respeito a tecnologias para condução autônoma, eletrificação, mecânica inteligente e integração dos sistemas, onde os veículos serão capazes de “ver – julgar e agir” priorizando a segurança e a eficiência energética.

 

 
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